—A coisa foi assim: quando nos deixaste, ficamos á esquina, eu e o Dragounof. O Isaías appareceu de repente... e conservou-se afastado... Troçava de nós, observando-nos... Dragounof disse-me: «Não vês! Anda-me a espiar todas as noites. Ainda venho a dar-lhe uma lição!» E afastou-se para entrar em casa, ao que julguei... Então o Isaías chegou-se a mim...

Suspirou:

—Ninguem me insultou mais rélesmente do que aquelle cão!

Sem falar, Pélegué fôra conseguindo puxal-o para junto da meza até obrigal-o a sentar-se.

—Disse-me que todos nós eramos conhecidos da policia, que tinha os olhos em nós, e que antes do primeiro de maio estariamos servidos!... Não respondi, limitei-me a rir-me, mas cá por dentro começava a ferver. Disse-me depois que eu era um rapaz intelligente, que não deveria metter-me a taes caminhos...

—Percebo!... murmurou Pavel.

—Isso! Acabou por dizer-me que seria melhor eu entrar ao serviço da policia...

E de punho cerrado erguido:

—Que alma infame a d’aquelle homem! Mais valia que me houvesse esbofeteado! ter-me-ia custado menos! e talvez fosse melhor para elle. Perdi a paciencia quando assim me cuspiu no coração a sua saliva infecta! Dei-lhe um muro em pleno rosto, e retirei-me. Ouvi uma voz atraz de mim: «Fizeste muito bem!» Era Dragounof, que por certo tinha ficado occulto na esquina. Não olhei para traz, apezar de sentir, de compreender a possibilidade... Ouvi depois um ruido, mas não fiz caso. Eu ia tão tranquillo como se tivesse acabado de esmagar um sapo. Quando cheguei á fabrica, dizia toda a gente: «Mataram o Isaías! Não quiz acreditar. A minha mão é que teve a culpa... Não sou senhor d’ella... Não me faz soffrer, não... mas dir-se-ia que a sinto retraída agora...

Lançou á mão um olhar rapido e exclamou: