—Muito me alegro! muito me alegro!

—Queres chá? perguntou a dona da casa.

—Pudera! e um copinho de aguardente... e se me offerecessem de comer, tambem não recusaria. Estou contente por tornar a vêl-os!

—E como vae?

—Bem. Parei em Eguildiévo. Conhecem? É uma bella villa, com duas feiras por anno e mais de dois mil habitantes. Má gente. Não ha terras para cultivar; arrendam-nas, mas são de má qualidade. Entrei como assalariado ao serviço de um explorador do povo; não faltam d’estas sanguesugas; são como as moscas á roda de um cadaver. Fazemos carvão, extraímos alcatrão das bétulas. Trabalho duas vezes mais do que trabalhava aqui, e ganho quatro vezes menos. Ao serviço d’esta sanguesuga somos sete, todos lá da terra, menos eu. Sabem ler e escrever. Um delles, chamado Jéfim, é muito bulhento...

—E fala muito com elles?

—Está claro. Levei comigo todos os meus folhetos. Tenho trinta e quatro. Mas prefiro servir-me da Bíblia: encontra-se lá tudo o que se quer, e é um livro permittido, publicado pelo Santo-Synodo, e no qual se pode crer.

Piscou o olho, malicioso, e continuou:

—O peor é que não basta. Vim cá buscar leitura. Como vamos fazer uma entrega d’alcatrão, o tal Jéfim e eu, combinámos a patuscada de passar por tua casa... Dá cá livros antes que elle appareça... É inutil que elle fique sabendo...

Pélagué observava-o; parecia-lhe que ao largar a capa, largara tambem qualquer coisa da sua pessôa: estava menos grave do que d’antes, e havia no seu olhar mais astucia.