—Acha bem que os mestres-escolas sejam mettidos na cadeia como suspeitos de fazerem propaganda?
—Então? que tem isso? Essa é boa! Os livros são coisa que lhes dizem respeito, a elles; portanto elles que tenham a responsabilidade!
Pélagué interveio, mostrando-se da opinião de Rybine, ao que Pavel objectou:
—Se qualquer de nós, o André por exemplo, praticasse uma infracção da lei e me mettessem na cadeia, a mim, o que diria a minha mãe?
—Ah! ah! É um caso melindroso!... exclamou Rybine. Mas assumindo uns ares doutoraes:
—Ainda és muito ingenuo, irmão! Não nos devemos preoccupar com casos de honra, quando trabalhamos por uma causa secreta. Reflecte: quem primeiro caírá na cadeia será a pessoa a quem forem encontrados os livros, e não o mestre. Depois, o texto dos livros auctorisados que os mestres distribuem é o mesmo dos livros proíbidos, com simples differenças de palavras e com menos coisas verdadeiras do que os nossos. Portanto os mestres teem o mesmo fim que eu, mas servem-se de rodeios, ao passo que eu vou por caminho direito; e assim, aos olhos das auctoridades, somos igualmente culpados; não achas? Em terceiro logar, que tenho eu a ver com os mestres-escolas? Não procederia da mesma maneira com um camponez. O mestre-escola é um filho de padre; a mestra uma filha de proprietario; não sei porque se põem a querer levantar o povo. Eu, camponez, não posso conhecer os seus pensamentos de pessôas instruidas. Sei o que faço, mas ignoro o que elles querem. Durante milhares d’annos, os grandes eram verdadeiros senhores e tiravam a pelle do povo; de repente accordam e começam a abrir os olhos ás suas victimas. Nunca tive predilecção por contos de fadas, e este é um d’elles. Para mim, a gente rica e instruida, seja qual fôr, fica afastada de nós. No inverno, quando atravessamos os campos e vemos ao longe alguma coisa a mexer, perguntamos a nós mesmos: será uma raposa, um lobo, um cão? Sabe-se lá o que é!
E, passando a mão pela barba:
—Não tenho tempo para delicadezas. O momento é grave. Trabalhe cada qual, segundo a sua consciencia... Todas as aves teem o seu canto especial.
—Mas ha ricos que se sacrificam pelo povo, que passam toda a vida na cadeia... observou a velha, recordando-se de pessoas amigas.
—Com esses o caso é outro. Quando o homem do povo enriquece, acotovella-se com os senhores. Estes, quando empobrecem, tornam-se amigo do povo. Quando a algibeira está vasia, a alma torna-se pura, á força.