Ergueu-se e continuou, sombriamente:

—Durante cinco annos, desacostumei-me do campo, andando errante de fabrica em fabrica. Quando para lá voltei e vi o que se passava, disse comigo que não podia viver como vivem os camponezes. Percebes? Parecia-me impossivel. Por cá não se conhece a fome, nem a muita humilhação. Mas na aldeia a fome segue o homem como uma sombra durante toda a vida, sem nunca lhe dar a esperança de obter pão que chegue. A fome devorou as almas, apagou as feições humanas; não se vive: apodrece-se irremediavelmente na miseria. E as auctoridades vigiam, cuidadosas; como os corvos, espreitam, não se dê o caso de que o camponez tenha um bocado de pão a mais. Quando o descobrem, arrancam-lho da mão, e ainda lhe dão com elle na cara!

Encostado á mesa, de pé, falando muito perto de Pavel, proseguiu:

—Julguei que não poderia supportar semelhante vida. Todavia, dominei-me. Disse com os meus botões: «Não devo consentir que a minha alma me faça partidas! Ficarei aqui, e, não podendo dar pão aos camponezes, farei a zaragata!»

Com a fronte coberta de suor, exclamou:

—Dá-me livros que não deixem mais em descanso aquelles que os lerem. Ajuda-me! É preciso metter ouriços dentro da cabeça d’aquella gente. Dize aos que escrevem folhetos para os da cidade, que os escrevam tambem para os do campo. Que os escrevam de maneira a regar o campo de agua a ferver, para que os cultivadores, depois de lel-os, caminhem para a morte sem protestarem!

As frases vigorosas de Rybine impressionavam Pélagué. Havia n’aquelle homem o que quer que fosse que lhe recordava o marido: um e outro mostravam os dentes e arregaçavam as mangas, com a mesma irritação impaciente. Ao menos, Rybine falava.

—Sim! é indispensavel! disse Pavel. É indispensavel organisar um jornal para o campo. Dê-nos o assumpto, narre-nos os factos, e nós lhe daremos um jornal.

Ao que Rybine respondeu.

—Está dito! Mas escrevam com simplicidade, para que até os vitellos os entendam!