—Nosso Senhor Jesus Christo não teria vindo ao mundo, se os homens não morressem pela sua gloria!
A multidão olhou para ella em silencio.
Quando Pélagué entrou em casa acompanhada por Sizof, houve ainda na rua algumas frases em que a reflexão dominava... Depois todos dispersaram, vagarosos.
SEGUNDA PARTE
I
...O resto do dia passou n’um nevoeiro entrecortado de recordações, n’uma fadiga extrema que opprimia corpo e alma. Como uma sombra pardacenta, o officialsito saltitava sob os olhares da velha, e em negro redemoinho movediço luziam o rosto bronzeado de Pavel e os olhos risonhos de André...
A velha ia e vinha pelo quarto, sentava-se junto da janella, olhava para a rua, tornava a levantar-se e franzia o sobrolho; sentia-se estremecer, relanceava os olhares em torno; e com a cabeça esvaída, procurava o que quer que fôsse, sem mesmo saber o que queria... Bebeu agua sem acalmar a sêde, sem extinguir no coração o ardente brazeiro de angustia e de humilhação que toda a consumia. Aquelle dia apresentava-se-lhe dividido em duas partes. A primeira tinha uma significação, um conteúdo, mas a segunda era como se se evaporasse, era um vacuo absoluto. Pélagué não encontrava resposta á pergunta tremente de perplexidade que a si propria apresentava:
—Que havia de fazer... agora?...
Maria Korsounova appareceu então. Poz-se a gesticular com força, gritou, chorou, bateu o pé, alvitrou e prometteu qualquer coisa, ameaçou quem quer que fôsse. Mas tudo aquillo não conseguiu impressionar sequer a outra.
—Ah! dizia a voz destemperada de Maria, assim como assim, o povo mexeu-se d’esta vez... Ahi a teem em revolta, toda a fabrica!