—É verdade, é, respondeu baixinho Pélagué, meneando a cabeça. E com o olhar fito, considerava quão longe ficára o passado e tudo o que d’ella se afastára com André e com Pavel. Não podia chorar. Tinha o coração confrangido mas arido; os labios seccos tambem, como a garganta. Tremiam-lhe as mãos e tinha arrepios gélidos pelas costas. Mas subsistia n’ella uma scentelha de colera, fixa, cravada no coração qual agulha. E a tal intimo instigamento respondia ella com uma promessa de fria reflexão:

—Esperem um pouco!...

E então, tossindo ruidosamente, franzia as sobrancelhas.

Pela noite, veio a policia. Recebeu-os sem admiração nem temor. Entraram pela casa dentro fazendo muita bulha, com ares satisfeitos. O official de pelle amarellada disse, mostrando os dentes:

—Então como vae isso? É esta a terceira vez que nos encontramos, an?

Ella ficou-se em silencio e passou a lingua pelos beiços para humedecel-os. Entrou então o official a falar muito, em tom de pessoa fina. E Pélagué percebia que elle falava pela satisfação de se ouvir a si proprio. Mas as palavras nem lhe chegavam aos ouvidos nem a impressionavam. No entretanto, quando o official lhe disse:

—Tu propria tens culpas, porque não soubeste inspirar a teu filho o respeito a Deus e ao Imperador...

Respondeu sem o fitar:

—Os nossos filhos é que são os nossos juizes... Elles hão de condemnar-nos, e com toda a razão, visto que os deixámos seguir tal caminho...

—O quê? gritou o official, fala mais alto!