Tomou lhe novamente da mão, apertou-lh’a fortemente.
—Venha o mais depressa que possa, sim? repetiu.
E, como das outras vezes, foi-se sem fazer ruido. Ao despedir-se d’elle, Pélagué pensava:
—É tão bom homem!... Comtudo não teve uma palavra de compaixão...
E não chegou a perceber bem se tal facto lhe era desagradavel ou se lhe causava simples admiração.
II
Quatro dias apóz a visita de Nicolao, punha-se Pélagué a caminho, em direcção a casa d’elle. Quando o carro que a transportava e ás duas malas, atravessou o burgo e rodou em pleno campo, voltou-se para traz ainda uma vez e sentiu n’esse instante que era para sempre que abandonava aquelle logar onde decorrera a quadra mais sombria e penosa da sua vida, onde outra existencia começara, periodo replecto de novos desgostos e de novas alegrias, em que os dias voavam velozes.
Semelhante a immensa aranha d’um vermelho escuro, estendia-se a fabrica ao longo do solo sujo de fuligem, erguendo muito ao alto na atmosphera, as enormes chaminés. Em torno, amontoavam-se os casinhotos do operariado. Pardacentos e mesquinhos, formavam grupo compacto á beira do charco e pareciam entreolhar-se lastimosamente pelas suas janellinhas sem brilho. A meio d’elles erguia-se a igreja, de côr vermelha como a fabrica, com o seu campanario, que parecia menos elevado do que as chaminés da fabrica.
A pobre mulher suspirou, desapertou a gargantilha do vestido, que a incommodava. Ia triste, mas de uma tristeza arida como a poeira d’uma tarde d’estio.
—Para diante! resmungava o carroceiro, puxando pelas redeas. Era manco, de idade imprecisa, com uns olhos sem côr definida e uns raros cabellos de tom sujo. Bamboleando-se todo, caminhava ao lado do vehiculo, demonstrando claramente que o fim da viagem, qualquer que elle fosse, se lhe tornava totalmente indifferente.