—Para diante! repetia com uma voz sem timbre, atirando por maneira caricata com as pernas cambadas, calçadas de grossas botas cheias de lama. A passageira, essa, vagueiava o olhar em torno. A desolação da planicie era tão profunda como a da sua alma...

O cavallo, saccudindo lamentosamente a cabeça, enterrava as patas pela areia profunda, que rangia, froixamente requentada pelo sol. A carroça, em mau estado e com os eixos mal azeitados, chiava a cada volta das rodas. A todos estes ruidos vinha juntar-se a poeira.

Morava Nicolao Ivanovitch no extremo da cidade, n’um pequeno pavilhão pintado de verde, encostado a um sombrio predio de dois andares, a caír de vetustez, em rua solitaria. Á frente do pavilhão, havia um jardim, de fórma que pelas janellas dos trez quartos mettiam-se as frescas ramadas de algumas acacias, lilazes e um ou outro alamosinho prateado. Os quartos eram aceiados e silenciosos; sombras mudas e recortadas, tremiam sem cessar nos sobrados; pelas paredes havia prateleiras carregadas de livros e alguns retratos de pessoas de modos graves e ponderados.

—Parece-lhe que lhe ha de agradar isto? perguntou Nicolao, introduzindo a sua hospede n’um quarto com uma janella para o jardim e outra para o pateo coberta por espessa relva. E, n’este como nos outros quartos, guarneciam as paredes varias estantes carregadas de livros.

—Antes queria ficar na cosinha.

Falava assim porque lhe parecia ver em Nicolao o receio de qualquer coisa. Elle dissuadiu-a de tal proposito, mas com uns modos de constrangimento, e logo que ella renunciou a ir habitar na cosinha, tornou a mostrar-se satisfeito.

Reinava em toda a casa particular atmosfera: era agradavel respirar ali, mas as vozes instinctivamente faziam-se menos ruidosas; não se sentia o desejo de falar alto, nem de perturbar a beatifica meditação das personagens que do alto das suas molduras olhavam concentradamente.

—Estas plantas precisam de ser regadas, disse ella depois de tatear a terra dos vasos.

—Sim, sim, concordou o dono da casa, um tanto confuso. Bem vê, gosto muito de flôres, mas não tenho tempo para tratar d’ellas.

Notava Pélagué que, mesmo em sua casa, bastante confortavel aliás, Nicolao movia-se com prudencia, sem fazer bulha, como que estranho e a mil leguas de tudo o que o cercava. Ia pôr a cara mesmo em cima do que queria vêr; compunha os oculos com os dedos afusados da mão direita, assestando, por assim dizer, uma interrogação muda, a cada objecto que considerava. Dir-se-ia que fizera a viagem com a sua hospede e que tudo n’aquella casa lhe era desconhecido. Então, ao vêl-o assim distraído, Pélagué entrou a sentir-se inteiramente á vontade na sua nova habitação.