Precedida de Nicolao, percorria a casa, notando de memoria o logar de cada objecto e interrogando o seu amigo sobre os seus habitos de vida, ao que este dava respostas embaraçadas, como alguem que tivesse a consciencia de não proceder como deveria, mas que não tivesse outro expediente a tomar.
Regadas as plantas e reunidas em um só monte as musicas esparsas sobre o piano, deu com o samovar.
—Tem de ser limpo, observou.
Nicolao passou um dos dedos pelo metal embaciado pela sujidade e, pondo-o mesmo diante do nariz, observou-o com attenção. Isto fel-a rir com gosto.
Quando se encontrou na cama, e depois de ter recordado as peripecias de tal dia, Pélagué deitou a cabeça fóra da roupa e poz-se a olhar em volta. Era a primeira vez na sua vida que se via em casa de um estranho. Não se sentia perturbada com esta idéa. Sollícitamente, pensou no seu hospedeiro; a si propria prometteu amenisar-lhe a existencia com um pouco de carinhosa affeição. Impressionavam-na a timidez, o feitio desgeitoso e ridiculo de Nicolao, a expressão a um tempo ingenua e séria dos seus olhos claros. E logo o pensamento lhe vôou para o filho; reviveu mentalmente os episodios do dia primeiro de maio. Esta lembrança causava-lhe uma dôr particular, como particular fôra aquelle dia: era um soffrimento que não abatia a cabeça para o solo como a pancada d’um malho, mas que torturava o coração com mil picadas e excitava surda colera, fazendo altear-se o dorso corcovado da velha.
—Como é triste ter filhos para os ver partir por esse mundo fóra!... pensava. E apurava o ouvido, escutando os ruidos, desconhecidos para ella, da vida nocturna da cidade, que lhe chegavam amortecidos e atenuados pela janella aberta, por entre as folhagens do jardim, vindos de longe, a morrerem suavemente dentro do quarto.
Pela manhã, cedo, procedeu á limpeza do samovar e accendeu-lhe o lume; guardou toda a loiça sem fazer barulho; depois, foi sentar-se na cosinha e esperou que o seu hospedeiro accordasse. Houve um ruido de tosse e appareceu Nicolao com os oculos na mão.
Tendo correspondido aos bons dias que este lhe dirigiu, Pélagué levou o samovar para a casa de jantar, emquanto Nicolao se lavava, espalhando a agua pelo sobrado, deixando caír a todo o momento o sabonete, a escova, resmungando de continuo contra si proprio.
Ao almoço, Nicolao participou-lhe:
—É bem triste a minha occupação na administração da provincia: emprego-me em observar como é que a nossa gente do campo se arruina...