E repetiu com um sorriso contrafeito:
—Sim, observo, é o verdadeiro termo. Essa pobre gente morre de fome, ainda novos, lá vão para a cova, roidos pela miseria; as creanças nascem fracas e enfesadas, caem aos centos, como as moscas, quando chega o inverno... Sabemos tudo isso perfeitamente... conhecemos as causas d’essa calamidade e afinal, depois de as termos analisado, recebemos o nosso ordenado... e ficamos por aqui.
—Mas o senhor o que é? perguntou Pélagué. Foi estudante?
—Nada; era mestre-escola rural... Meu pae é director d’uma fabrica em Viatka; e eu fiz-me professor. Mais tarde, por ter distribuido uns livros pelos habitantes do logar, atiraram commigo para uma enxovia. Depois, fui empregado de livraria Ali, parece que tambem commetti qualquer imprudencia, porque fui outra vez preso: então mandaram-me para a provincia d’Arkhangel... Por lá tive tambem os meus desaguisados com o governo local e fui recambiado lá para as margens do mar Branco, para um logarejo onde vivi cinco annos...
E dizendo isto, a voz resoava-lhe calma e suave na tranquilidade d’aquelle quarto claro, inundado de sol.
Frequentes vezes tinha a sua interlocutora ouvido historias do genero d’aquella; mas nunca pudera compreender porque era que quem as contava o fazia com tal placidez, sem que nunca formulasse, por tantos soffrimentos, uma accusação contra ninguem, como se aquillo devesse fatalmente acontecer a todos...
—Sabe que chega hoje minha irmã, annunciou elle.
—É casada?
—Viuva. O marido foi exilado para a Siberia. De lá conseguiu fugir, mas no caminho apanhou um resfriamento e morreu no estrangeiro, ha de haver dois annos.
—Sua irmã é mais nova do que o senhor?