—Sou eu que lhe peço desculpa. Falei sem reflectir. Não é a mim que compete repreendel-a.
—E porque não?... Se eu sou uma estouvada! redarguiu Sofia serenamente e com um encolher de hombros. O café está pronto? Muito obrigada! Então, só uma chavena? Não se serve?
E, collocando-lhe as mãos nos hombros, puxou-a para si, fitou-a e perguntou-lhe em tom de admirada:
—Estará por acaso a fazer cerimonia?
A outra respondeu com um sorriso:
—Ainda hontem cheguei aqui, e já hoje me parece que estou em minha casa e que conheço a senhora ha muitos annos... Nada receio; digo o que me vem á cabeça; faço observações...
—E está muito bem! exclamou Sofia com entusiasmo.
—Nem sei onde tenho a cabeça! Nem já me conheço! continuou Pélagué. Antigamente, a gente estudava as pessoas por dentro e por fóra primeiro que lhes falasse com o coração nas mãos; agora, não, parece que nada se receia, dizem-se de repente coisas que d’antes nem mesmo nos atreviamos a pensar... e que de coisas!
Sofia accendeu outro cigarro; pousára o olhar cinzento na sua interlocutora, cariciosamente.
—Disse ha pouco que se ha de arranjar a fuga do Pavel... Mas como vae elle viver depois?