Era esta pergunta que importunava Pélagué e que conseguira emfim formular.

—É coisa facil! respondeu Sofia, servindo-se outra vez de café. Ha de viver como vive grande numero de evadidos... Olhe, agora acabo eu de ir buscar um d’elles, que acompanhei até ao estrangeiro. É tambem um homem valioso; é operario no sul; foi condemnado a cinco annos de degredo, mas só cumpriu trez annos e meio. É por este motivo que me vê tão bem vestida. Julgava que era o meu trajo habitual? Não; detesto os farrapos e os enfeites... A humanidade é de origem humilde; deve trajar com humildade,—vestuario bem feito mas simples...

Pélagué, abanando a cabeça, disse em voz baixa:

—Ah! esse primeiro de maio é que me pôz as idéas em confusão! Não me sinto bem; chega-me a parecer que vou por duas estradas, ao mesmo tempo... tão depressa julgo que compreendo tudo, tão depressa me vejo cercada de nevoeiros... A senhora, por exemplo... Vejo que é uma senhora fina... e a senhora tambem trabalha pela nossa causa... conhece o Pavel... e diz que o tem em grande conta... Não sei como agradecer-lhe...

—Não, os agradecimentos são para si, disse Sofia, rindo.

—Para mim?! Não fui eu que lhe ensinei essas coisas todas! respondeu a mãe com um suspiro. Dizia-lhe eu então, continuou: umas vezes, tudo isto me parece simples, outras, nem essa mesma simplicidade eu posso compreender... Assim, agora, encontro-me com o espirito socegado, d’aqui a instantes, já sinto medo por me vêr tão socegada. Toda a minha vida tenho passado em meio de inquietações... e agora, que ha motivo para receios, já quasi não sinto medo... Porque é isto? Não sei!...

Pensativamente, Sofia respondeu:

—Ha de vir um dia em que tudo compreenderá!... Parece-me tempo de abandonar todos estes esplendores de vestuario...

Collocou a ponta do cigarro no pires, e saccudindo a cabeça, fez rolar sobre os hombros, em madeixas espessas, os doirados cabellos. Depois saíu...

A outra seguiu-a com a vista, suspirou, olhou em torno e começou a arrumar a loiça, com a cabeça vasia de idéas, prostrada por uma somnolencia que a amodorrava.