Durante trez dias, Pélagué tremia: o coração parecia-lhe parar quando pensava em que gente extranha entraria em sua casa. Não podia fantasial-os, mas afiguravam se-lhe terriveis. Eram elles quem apontaram ao seu filho o caminho que elle seguia agora...
No sabbado á tarde, Pavel voltou da fabrica, lavou-se, mudou de fato e saíu, dizendo sem olhar para a mãe:
—Se alguem vier, dize que não me demoro, que me esperem. E não tenhas medo, se fazes favor... São pessoas como as outras.
Ella deixou-se cahir sobre o banco. O filho contemplou-a franzindo o sobrolho, e propoz—Talvez seja melhor saíres; an?
Ella offendeu-se. Disse que não com a cabeça, murmurando:
—Seria o mesmo. Para que sairia eu?
Estava-se no fim de novembro. Durante o dia tinha caído na terra gelada um nevão fino e secco, que Pavel triturava sob seus passos. Ás vidraças apegavam-se espessas trevas. A mãe, desalentada, ia esperando, com os olhos fixos na porta.
Parecia-lhe que, na obscuridade, creaturas silenciosas, de trajos não vulgares, se dirigiam para a casa, vindos de pontos varios, que se adiantavam occultando-se, corcovados, e olhando para um e outro lado. Junto da porta, encostado á parede, havia já alguem.
Ouviu-se um assobio que vibrou no silencio como um fio, melodioso e triste; errava no deserto da noite, approximava-se... De subito, calou-se mesmo junto á janella, como se tivesse penetrado atravez da parede.
Soou o ruido de passos; Pélagué ergueu-se trémula, com os olhos dilatados.