—Nada me pergunte, faça de conta que não estou aqui, respondeu ella. E foi sentar-se para um canto do canapé coberto de uma capa de linho. Notava ella que os dois irmãos, sem parecerem ligar-lhe importancia, a intromettiam todavia, e a meude, na conversação.

—Ouve isto, Nicolao; é de Grieg. Trouxe hoje a musica. Fecha a janella!

Abriu a partitura e acariciou as teclas de mansinho, com a mão esquerda. As cordas entraram a vibrar em accordes indolentes e pesados.

Houve primeiro um profundo suspiro, depois outra nota veio juntar-se ás primeiras, n’uma forte e tremente amplidão de som. A mão direita entrou então em resonancias claras, em gritos parecidos com os de uma ave assustada; balanceou-se depois, em cadencia, imitando o palpitar das azas no fundo sombrio das notas graves, que cantavam, harmoniosas e compassadas, quaes vagas batidas pela tempestade. Em resposta á canção, vinham logo caudaes de accordes soturnos, chorando com dôr, suffocando queixumes, implorações, gemidos, tudo fundido n’um rythmo de angustia. Por vezes, como n’um impulso de desespero, a melodia soluçava, desfallecida; mas logo recaía, rastejando, hesitante, sob a torrente espessa e cascadeante das notas cavas, e afogava-se, sumia-se, para de novo reaparecer por entre o ribombar igual e monotono; tomava alento, então vibrava e dissolvia-se por fim n’um poderoso martelar de notas humidas que toda a salpicavam, e ficava a suspirar sem cansaço, com a mesma força e a mesma resignação...

Ao principio, a música não impressionou Pélagué; não a compreendia; era para ella como um cáos de sonoridades. O ouvido não lhe permittia distinguir a melodia na palpitação complexa d’aquella alluvião de notas. Meio somnolenta, fitava Nicolao, sentado no outro extremo do canapé, com as pernas dobradas por debaixo do corpo; considerava tambem o severo perfil de Sophia, de cabeça inclinada, sob o velo espesso dos seus cabellos d’oiro. Ia pôr-se o sol. Um raio tremulo nimbou primeiro a cabeça, o hombro da pianista; depois, deslisando para o teclado, brincou-lhe entre os dedos. Toda a sala estava cheia d’aquella melodia, e o coração da mãe despertava emfim, sem que ella mesma o percebesse. Succediam-se, entretanto, trez notas vibrantes como a voz de Fédia Mazine, regularmente e sustentando-se mutuamente á mesma altura, taes trez peixes de prata fluctuando n’um regato, scintillando por entre a torrente dos sons...

De vez em quando, outra nota mais vinha juntar-se ás primeiras, e, todas ao mesmo tempo, entravam a cantar uma canção ingenua, triste e acalentadora. E Pélagué começava a poder seguil-as, esperando que voltassem, não escutando outra coisa, abstraíndo-as do cáos inquietador da harmonia geral, que pouco a pouco ia deixando de ouvir...

E subitamente, das negruras remotas do seu passado, veio-lhe a recordação d’uma humilhação esquecida havia muito, mas que ressuscitava agora com nitidez cruel.

De uma vez, o marido voltára-lhe para casa tardíssimo e completamente embriagado. Puxára-a pelo braço, atirára-a da cama e enchera-a de pontapés, regougando:

—Vae-te d’aqui, canalha, que não te posso aturar!... Vae-te!

Para se esquivar aos maus tratos, tomára precipitadamente nos braços o filho, que então tinha dois annos, e, firmando-se nos joelhos, protegia-se com o corpinho do innocente, como se fôsse um escudo. O pequeno chorava, barafustava, com medo, nu, e quentinho do berço.