—Vae-te d’aqui! rugia Mikhaíl.
Ella saltára da cama, descalça, correra á cosinha; então, atirando uma camisola para os hombros e embrulhando a criança n’um chale, sem uma palavra, sem um queixume nem uma exortação, com os pés no lagedo, saíra para a rua. Era em maio, a noite ia fresca; a frigida terra da calçada collava-se-lhe aos pés, penetrando-a toda, regelando-a.
A criança chorava sempre e debatia-se. Desnudára o seio, conchegou a si o pequeno; e, instigada pelo medo, lá se foi pelas ruas escuras, cantando baixinho para adormecer o filho. Ia despontar o dia; Pélagué toda se envergonhava com a ideia de ser encontrada n’aquelle estado. Desceu até á margem do pantano, sentou-se no chão debaixo de compacto bosque de álamos... E para ali esteve muito tempo, disfarçada na treva, com os olhos esgazeados fitos na escuridão, a cantar timidamente para embalar o filho e o coração ultrajado. Subito, uma ave negra, silenciosa, esvoaçára-lhe por sobre a cabeça e sulcára o ceu, accordando-a. E a tremer de frio, erguera-se e lá voltára para casa, a arrostar com o seu habitual terror das sevicias e das injurias incessantes...
Pela ultima vez, ecoou um accorde sonoro, mas de indifferença e frieza, que n’um suspiro se immobilisou no ambiente.
Voltou-se Sophia e a meia voz perguntou ao irmão:
—Gostas?
—Muito! respondeu, estremecendo como se saísse d’um sonho; muito!...
Os dedos de Sophia desfiaram então um harpejo suave e harmonioso.
No intimo do seu peito, Pélagué escutava ainda o echo debil e tremente das suas recordações. O seu desejo era que a musica proseguisse. E um pensamento germinava n’ella:
—Ora aqui está uma gente que vive socegada... o irmão, a irmã... muito amigos... Entretêem-se com a musica... Não dizem palavradas, não bebem aguardente, não questionam por qualquer futilidade... nem pensam sequer em offender-se um ao outro, como se faz entre toda a gente de baixa extracção...