—É o que estou fazendo! replicou tranquillamente.
A sua tranquillidade, a sua voz suave, a simpleza da sua fisionomia deram coragem a Pélagué. Elle contemplava-a com olhar franco, com um ar bondoso; no fundo dos seus olhos transparentes luzia um brilho alegre, e havia um tanto de divertido e de simpatico n’aquella creatura angulosa e acurvada como n’um poleiro feito das proprias pernas. Trazia vestidas calças pretas, cujas extremidades estavam mettidas quasi dentro das botas; em vez de casaco, bluza azul. Pélagué tinha vontade de perguntar-lhe quem elle era, d’onde vinha, se conhecia o seu filho de ha muito tempo, quando, de chofre, elle moveu-se e perguntou:
—Ó tiasinha, quem foi que lhe abriu essa brécha na testa?
Falava meigamente e sorria com o olhar. Mas a pergunta irritou-a. Mordeu os labios, e apóz curto silencio, perguntou com fria delicadeza:
—E o que tem o tiosinho com isso?
Elle voltou-se de todo.
—Ah! não se zangue. Se lhe fiz esta pergunta, foi porque a minha mãe adoptiva tinha tambem uma brécha na testa, exactamente como a sr.a. Uma sova que lhe deu o marido, com uma fôrma de botas. Era sapateiro. Ella era lavadeira. Tinha-me adoptado já, quando, por sua desgraça, encontrou aquelle bêbedo não sei onde. O patife batia-lhe; digo-lhe só isto! Eu tinha tanto medo d’elle, que a pelle estalava-me.
Pélagué sentiu-se desarmada perante aquella franqueza, e pensou de si para si que talvez Pavel não ficasse contente, se ella fosse menos delicada para com aquelle original. Por isso disse com um sorriso envergonhado:
—Eu não me zango... O sr. é que me deixou surpreza com a pergunta. Foi um presente do meu marido, que Deus tenha! O sr. não é tartaro?
O homem mexeu as pernas, e teve um sorriso tão aberto, que até as orelhas pareciam chegar-lhe á nuca. Depois disse gravemente: