Respirava com avidez, absorvendo o ar em pequenas golfadas repetidas. Falava a espaços.

Os dedos descarnados das diafanas mãos, perpassava-os pelo peito, tentando abotoar o sobretudo.

—Póde ser-lhe doentio, para si, este passeio tão tarde, pela floresta... Ha muita humidade e suffoca-se, ali! fez notar Sofia.

—Para mim já nada ha salubre ou doentio! respondeu, offegante. Só a morte será bemvinda.

Era doloroso ouvir falar aquelle homem, tanto mais que toda a sua pessoa provocava dó, uma compaixão infinita mas improficua. Agachou-se sobre uma barrica, dobrando os joelhos com precaução, como se receasse que se quebrassem; depois, enxugou a fronte, coberta de suor. Tinha os cabellos seccos e sem viço.

O lume começava a atear-se. Ao clarão das chammas tudo se deslocou; as sombras, lambidas pelas labaredas, fugiam assustadas pela floresta. Por cima do brazeiro appareceu por instantes a cara redonda d’Ignaty, a soprar. Depois, apagado o lume, ficou persistente o cheiro do fumo, e o silencio e as trevas apoderaram-se de novo da clareira, como se viessem apurar o ouvido para o falar rouco do doente.

—Mas ainda posso ser util ao povo... Sim, como o testemunho d’um enorme crime! Olhem para mim! Tenho vinte e oito annos e ando a morrer... Ha dez annos, levantava nos hombros, sem me custar, até duzentos kilos... Pensava eu então que com uma saude d’aquellas, havia de levar setenta annos para chegar á cova, direito e sem tropeçar... E afinal vivi dez... e não posso ir mais longe.

—Ahi têm a canção d’este homem! disse Rybine com voz rancorosa.

Reaccendeu-se mais viva a fogueira; de novo as sombras debandaram, para se sumirem nas chammas, agitando-se em torno do brazeiro n’uma dansa silenciosa e hostil. Sob a mordedura do lume, os velhos troncos estralejavam e gemiam. A folhagem susurrava em segredo, agitada por uma corrente d’ar quente. Vivas e folgazãs, as linguas de fogo purpureas e doiradas brincavam, abraçavam-se, erguiam-se, despedindo faíscas. Voou uma folha em braza. No ceu, as estrellas sorriam para as scentelhas, attraíndo-as a si.

—Não é só minha esta canção; ha milhares de creaturas que tambem a cantam, mas só para si! E cantam-na só para si porque não compreendem que as suas miseraveis existencias são uma lição salutar para o povo... Quantos seres minados ou estropiados pelo trabalho e pela cadeia, não morrem para ahi de fome, sem um queixume!... É preciso gritar bem alto, companheiros, é preciso gritar!