—Sim, continuou Vessoftchikof, rindo, isso tambem era tolice, bem vejo. Mas ainda assim, andei mal com os companheiros. Não digo nada a ninguem e ponho-me ao fresco... Na rua, encontrei um enterro. Puz-me atraz do caixão—era uma criança—e lá fui de cabeça baixa, sem olhar para ninguem. Estive um bocado no cemiterio, de toitiço ao vento, e então veio-me uma idéa...

—Uma só? observou Iégor, e com um suspiro accrescentou: Parece-me que não lhe havia de faltar logar.

O bexigoso poz-se a rir, sem se zangar.

—Oh! já não tenho a cabeça tão vazia como d’antes... E tu, Iégor, continuas sempre doente?

—Faz-se o que se póde! respondeu o outro, saccudido por accesso de tosse. Continua!

—D’ali fui ao museu. Passei por lá vi, as collecções, mas sempre a pensar: «Para onde hei de eu ir, agora?» Estava furioso comigo mesmo e tinha uma fome horrorosa!... Voltei para a rua, puz-me a caminhar. Sentia-me envergonhado com aquillo! Percebi que os policias olhavam com attenção para quem passava... E dizia com os meus botões! «Bom! graças ao meu focinho, estou aqui, estou nas mãos da justiça!...» N’isto, vejo cá a velhota a correr. Passou-me ao lado; afastei-me para a deixar passar, voltei-me e segui-lhe no encalço... E mais nada!

—E eu que nem sequer dei por ti! notou ella em tom pezaroso. Examinava attentamente Vessoftchikof; achava-o mudado, mas para melhor.

—Os companheiros estão em cuidado, com certeza, sem saberem onde paro! proseguiu elle, coçando a cabeça.

—E dos guardas da cadeia, não tens saudades? Olha que elles tambem devem estar n’um cuidado!... observou Iégor.

Em seguida abriu a bocca e, movendo muito os beiços, como se quizesse absorver todo o ar, exclamou: