—Que me importa! Que fale ou que não fale, sempre tenho de morrer.

Olhou para a velha, ao mesmo tempo que os labios se lhe entreabriam lentamente n’um sorriso. Ella tinha curvado a cabeça; agudo sentimento de dó lhe fazia derramar lagrimas.

—Não chore, mãesinha; é natural... O prazer da vida traz comsigo a necessidade da morte...

Ella pousou-lhe a mão na cabeça e, em voz baixa:

—Cala-te, sim?

O doente fechou os olhos como se estivesse a escutar o estertor dentro do peito. Teimosamente, objectou:

—Estúpida coisa o estar calado, mãesinha!... Que ganho eu com isso?—uns minutos mais d’esta agonia e o ficar sem o prazer de palrar um bocado com uma santa mulher como você... Não creio que no outro mundo haja tão bôa gente como n’este...

Ella interrompeu-o, agitada:

—Olha que vem ahi já aquella senhora, e depois ralha comigo se te ouve falar...

—Não é senhora nenhuma; é uma revolucionaria, uma companheira, um coração admiravel!... De toda a maneira, ha-de ralhar comsigo, mãesinha! Está sempre a ralhar com toda a gente!