Pélagué fez um aceno. O medico saíu em passinhos rapidos. Iégor deitou a cabeça para traz, fechou os olhos e ficou sem movimento; só os dedos se lhe agitavam um pouco. Das paredes brancas da cellasinha exalava-se um frio secco e uma tristeza velada e pálida. Pela alta janella divisavam-se os cumes ondulados das tilias; por entre a folhagem poeirenta e sombría destacavam-se vivamente manchas amarellas: eram as frias primicias do outomno, que chegava...

—Vem para mim a morte, devagar, como que sem vontade! disse Iégor, sem bulir e sem abrir os olhos. Parece que tem pena de mim!... Pois se eu era um bom rapaz, de bom genio!...

—Cala-te, Iégor! supplicou Pélagué, afagando-lhe a mão ternamente.

—Espere um pouco, mãesinha, eu vou-me calar...

E, offegante, continuou com esforço immenso a articular palavras entrecortadas de longas pausas:

—Gosto muito que vocemecê esteja comnosco, mãesinha... É-me muito agradavel ver a sua fisionomia, os seus olhos tão vivos, a sua candura... Quando a vejo, pergunto a mim mesmo: «Como irá ella acabar?» E fico triste, a pensar que a espera a cadeia, ou o degredo, toda a especie d’abominações... como os outros... Não tem medo da prisão?

—Não! respondeu ella com simplicidade.

—Está claro!... E, comtudo, a prisão... é nojenta coisa... foi ella que me matou... Porque, para falar com franqueza, eu não tenho vontade de morrer.

Ella sentiu desejo de responder: «Talvez não morras ainda,» mas calou-se e ficou a olhar para elle.

—Podia ainda fazer alguma coisa pelo bem do povo... Mas quando a gente já não póde trabalhar, é impossivel viver, é uma estupidez!