Á memoria da velha accudiram então estas palavras de André: «Isso é verdade, mas não é consolador!» Suspirou. Sentia-se fatigadissima e com fome. O murmurar monotono e rouco do doente resoava triste pelo quarto, como que rastejando, impotente, por sobre a lisura das paredes. A folhagem das tilias fazia pensar em nuvens que tivessem descido á terra, e impressionava pelo seus tons carregados e melancolicos. Tudo, em volta, se congelava singularmente em tristonha immobilidade, n’aquella desconfortante espectativa da morte.
—Como me sinto mal! disse Iégor. E calou-se, fechando os olhos.
—Dorme! aconselhou ella. Talvez te faça bem.
Apurou por alguns instantes o ouvido para a respiração do doente e relanceou o olhar em torno de si. Invadida por glacial tristeza, entrou a dormitar.
...Despertou-a um ruido de vestidos roçagantes. Estremeceu ao ver Iégor accordado, com os olhos muito abertos.
—Deixei-me dormir... desculpa! disse em voz baixa.
—E tu, tambem, perdôa-me! replicou elle igualmente n’um murmurio.
Pela janella, entrava o crepusculo; um frio nevoento opprimia a vista; tudo se fundia em singular opacidade; o rosto do doente tomava tons mais sombrios.
De novo se ouviu um roçagar de saias e logo depois a voz de Lioudmila, dizendo:
—Então, aqui ás escuras, a tagarelar?... Onde fica o botão da luz?