—Que tolice, camarada!

—Mas eu vou incommodal-os! observou elle em voz debil.

—Cale-se; é o melhor que tem a fazer.

Pélagué parou por detraz d’ella e pousou-lhe a mão no hombro; fitou depois, sorrindo, o rosto muito branco do ferido e pôz-se a contar o medo que lhe tinha causado o seu accesso de delírio, no trem. Ivan escutava-a com os olhos a arder em febre; fazia estalar os beiços e exclamava de vez em quando, como que envergonhado:

—Oh, que tolo que eu sou!

—Bem, agora vamos deixal-o, declarou Sofia compondo-lhe as roupas que o cobriam. Descanse!

E as duas mulheres passaram para a casa de jantar, onde, com Nicolao e o médico, por muito tempo conversaram baixinho sobre os acontecimentos d’esse dia. Já o drama era tratado como coisa remota, já se falava do futuro com tranquillidade; preparava-se a tarefa de ámanhã. Se os rostos exprimiam a fadiga, os pensamentos latejavam vivos. O doutor mexia-se nervosamente na cadeira, esforçando-se por velar a voz, que tinha aguda e esganiçada:

—Ora, a propaganda!... Não basta; os operários têem razão: é necessario exercer a agitação em terreno mais vasto. Creiam que os operários têem razão!

Nicolao acrescentou com ar desconsolado:

—Por toda a parte se queixam da insufficiencia dos livros e ainda não conseguimos montar uma bôa imprensa... A Lioudmila está esgotada de forças, vae nos caír doente, se não lhe arranjarmos collaboradores.