—Em que pensas? perguntou elle ao doutor.
Este, mal humorado, respondeu:
—Somos poucos! Aqui tens em que penso... É absolutamente necessario trabalhar com mais energia. É necessario decidir o André e o Pavel a evadirem-se; são dois trabalhadores preciosos de mais para estarem na inacção.
Nicolao franziu o sobrolho, meneou a cabeça em ar de dúvida e lançou um rápido olhar para a mãe de Pavel. Percebeu que se constrangiam em falar do filho diante d’ella e foi para o seu quarto, levemente irritada contra quem tão pouco se preoccupava com os seus desejos.
Deitou-se e, de olhos abertos, embalada pelo ciciar das vozes, sentiu-se tomada de inquietação. Parecia-lhe incompreensivel o dia que acabava de decorrer, cheio de allusões ameaçadoras; mas porque este genero de reflexão lhe fôsse penoso, afastou-as do cérebro e entrou de pensar no seu filho. Queria vel-o em liberdade e, ao mesmo tempo, tal idéa assustava-a; sentia que tudo se lhe agitava em torno; a situação tornava-se cada vez mais tensa, andavam imminentes violentas collisões. A paciencia do povo dera logar a enervada espectativa; crescia visivelmente a irritação publica, ouviam-se com frequencia frases rancorosas, de toda a parte soprava um hálito novo, um vento d’excitação. As proclamações eram discutidas animadamente no mercado, nas lojas, entre a criadagem e os artifices; cada prisão que na cidade se effectuasse despertava ecos tímidos, mas inconscientemente simpaticos e as suas causas eram commentadas. Pélagué ouvia agora com mais frequencia a gente do povo pronunciar as palavras que outrora a amedrontavam tanto: «socialistas, política, revolta». Taes palavras eram repetidas com ironia, mas esta ironia não chegava a disfarçar o fim principal, que era o de se informarem das opiniões; com colera, mas sob esta colera transparecia o medo, e todos andavam pensativos, entre alternativas de esperança e de ameaça... Em vastos circulos, lentamente, ia-se propagando a agitação na vida sombria e estagnada do povo; despertava o pensamento adormecido; os acontecimentos diarios já não eram tratados com o socego habitual e a antiga placidez dos fortes. Pélagué notava tudo isto mais distinctamente do que os seus companheiros, pois que melhor do que elles conhecia o aspecto desconsolador da vida, d’ella vivia mais proxima e n’ella divisava simtomas de reflexão e de irritação, uma sêde vaga de alguma coisa nova, o que a regosijava e assustava-a um tempo. Regosijava-se porque tudo considerava obra de seu filho; assustava-se porque sabia que elle, mal saísse da cadeia, logo iria collocar-se no posto mais perigoso, á frente dos companheiros... e que ali havia de morrer.
Sentia muitas vezes Pélagué agitarem-lhe o espirito os grandes ideaes indispensaveis á humanidade e experimentava o desejo de falar da verdade, mas quasi nunca conseguia realisar o seu desejo. N’esta mudez forçada, os seus secretos pensamentos acabrunhavam-na. Por vezes, a imagem do filho tomava a seus olhos as proporções giganteas d’um heroe de lenda; n’elle resumia todas as maximas fortes e leaes que ouvira, todos os seus affectos, todas as coisas grandes e luminosas que o seu espirito abraçava. Contemplava-o então com mudo entusiasmo; ufana, enternecida, nadando em esperança, dizia comsigo:
—Tudo ha de ir bem!... tudo!
O seu amor materno exaltava-se, comprimia-lhe o coração até fazel-o sangrar, mas impedia que n’elle o amor pela humanidade se desenvolvesse, chegando a destruil-o de todo; e no logar d’este grande sentimento só ficava uma minúscula idéa fixa a palpitar timidamente nas cinzas frias da inquietação:
—Vae morrer... Vae morrer!...
Adormeceu tardíssimo em profundo somno, mas accordou logo muito cedo, com o corpo dorido e a cabeça pesada.