Atordoada, sem compreender bem o que via, Pélagué não desfitava Rybine. Este vinha a falar, pois que Pélagué lhe ouvia o som da voz, mas as palavras voavam indecisas, sem que tivessem éco no vácuo fremente e obscuro do seu espirito.

Voltou a si e respirou melhor. Um campónio de barba loira estava a fitar n’ella attentamente os olhos azues. Ella tossiu, esfregou o peito com as mãos trémulas de terror e perguntou com esforço:

—Que se passa?

—Veja vocemecê mesma, redarguiu o camponez, voltando-se de novo para ella. Outro rústico approximou-se do primeiro e postou-se lado a lado.

Os guardas fizeram alto em frente da populaça sem cessar crescente, mas que permanecia muda. De súbito, a voz de Rybine resoou com inergia:

—Teem ouvido falar d’esses papeis em que se escreve toda a verdade a respeito da nossa vida de campónios?... Pois bem: foi por causa d’esses papeis que me prenderam! Fui eu que os distribui pelo povo!

A multidão cercou então o preso. Este apparentava voz calma, reflectida, e isto aliviou Pélagué da oppressão em que se sentia.

—Estás ouvindo? perguntou o segundo camponez ao dos olhos azues, dando-lhe com o cotovelo.

Este, sem responder, ergueu a cabeça e de novo fitou a velha. O outro fez o mesmo. Era mais novo que o primeiro e tinha uma cara chupada, coberta de sardas, de barbinhas pretas. Os dois afastaram-se um pouco.

—Teem medo! disse Pélagué comsigo.