XVI
É que vinha chegando o commissário da polícia rural.
Era um homem alto e robusto, cara redonda. Trazia o bonné inclinado para a orelha; uma das guias do bigode vinha retorcida para cima, a outra pendia-lhe do canto da bocca, o que lhe dava uma expressão contorcida á cara, já de si desfigurada por um sorriso parado e estúpido. Na mão esquerda tinha uma pequena espada e balançava o braço direito ao ritmo dos passos. Fazia bulha, com o andar, pesado e firme. A populaça afastava-se na sua passagem. As fisionomias tomavam um aspecto de triste acabrunhamento.
O tumulto socegára, desapparecera como se se tivesse sumido pela terra. Pélagué sentiu estremecer-lhe em repuxões nervosos a pelle da fronte; offuscava-lhe a vista uma como névoa de calor. Novamente teve vontade de ir misturar-se áquella gente; inclinou-se porém, e ficou immovel, em angustiosa espectativa.
—Que temos? perguntou o commissário, parando diante de Rybine e medindo-o dos pés á cabeça. Porque é que este homem não tem as mãos amarradas? Porquê? Amarrem-lhas!
Tinha a voz aguda e sonora, mas sem timbre.
—Elle tinha as mãos amarradas... mas o povo desamarrou-lhas! respondeu um guarda.
—O quê? O povo? Que povo?
Percorreu com a vista o semi-círculo que o cercava e proseguiu na sua voz branca e uniforme:
—Quem vem a ser aqui o povo?