—Como?
Contraíu-se o rosto da autoridade. Bateu o pé e precipitou-se sobre Rybine, rogando pragas. A pancada resoou em surdo choque. Rybine cambaleou, agitou o braço; em segundo assalto, prostrou-o o commissário no solo e, aos pulos em volta d’elle, entrou a dar-lhe pontapés na cabeça, pelo peito, nas ilhargas.
A multidão, soltando gritos hostis, pôz-se em movimento e cresceu para o commissário, mas este deu um salto para o lado e desembaínhou a arma.
—Ah, é assim? Revoltam-se? Ah, é isso?
Tremeu-lhe a voz, tornou-se mais aguda e passou a saír-lhe da garganta em guinchos, como se se tivesse quebrado. E ao mesmo tempo que perdia a voz, sentia-se perder todo o prestigio. Com a cabeça encolhida nos hombros, o dorso recurvado e relanceando em torno o olhar amortecido, entrou a recuar, tateando cautamente o solo atraz de si. Amedrontado, rouquejava, ao mesmo tempo que ia cedendo:
—Muito bem... Fiquem com elle... Eu vou-me embora!... Mas, depois? Fiquem bem sabendo: esse homem é um criminoso político, combate contra o nosso tzar, anda a fomentar revoltas! Compreendem? É contra Sua Magestade o Imperador... e vocês defendem-no! Sabem que ficam sendo rebeldes?
Immovel, o olhar de estátua, sem idéas nem acção, como n’um pesadello, Pélagué succumbia ao peso do terror e da sua piedade. Semelhantes ás vibrações d’um sino enorme, susurravam-lhe aos ouvidos os gritos irritados da plebe. Tudo lhe redemoinhava dentro da cabeça, a voz tremente do commissário, mil ruidos confusos...
—Se é criminoso, seja julgado!
—E não massacrado!
—Tenha dó d’elle, Excellencia!