No quarto desenrolava-se tremente, como uma fita de côres magnificas, a historia simples e clara dos selvagens que viviam nas cavernas e atacavam com pedras os animaes. Era uma como lenda; por varias vezes, Pélagué olhava de soslaio para o filho, desejava saber o que haveria n’aquella historia de selvagens que a tornasse leitura prohibida. Mas a bréve trecho deixou de escutar e, sem que dessem por tal, começou a observar os seus hospedes.

Pavel estava sentado junto de Natacha; era bello entre todos os outros. A rapariga, inclinada sobre o livro, levantava a miudo os cabellos finos e encaracolados que lhe cahiam para a testa. Por vezes, sacudia a cabeça, e, com um olhar amigo, accrescentava algumas observações, abaixando a voz. O russo-menor tinha encostado o peito ao canto da meza, torcia o bigode, cujas guias deligenciava vêr, mettendo um olho por outro. Vessoftchikof, estava sentado n’uma cadeira, empertigado como um manequim, com as mãos nos joelhos; o seu rosto bexigoso, sem sobrolhos e de bigode muito raro, era immovel como uma mascara.

Sem desviar o olhar, contemplava obstinadamente a sua fisionomia reflectida no cobre brilhante do samovar; dir-se-ia que nem respirava. O pequeno Fédia escutava a leitura, movendo os beiços, repetindo para si as palavras do livro; o seu companheiro, o dos cabellos encaracolados, curvava-se, com os cotovellos nos joelhos, e sorria pensativamente, tendo a cara apoiada nas mãos. Um dos rapazes vindos com Pavel era ruivo e delgado; os olhos verdes tinham expressão alegre; parecia desejoso de dizer alguma coisa e fazia gestos de impaciencia; o outro, de cabellos loiros e curtos, passava a mão pela cabeça olhando para o sobrado, o que não permittia ver-se-lhe o rosto.

O quarto estava quente, n’uma temperatura especialmente agradavel n’aquella noite. No meio do murmurio da voz de Natacha, misturada á canção tremula do samovar, Pélagué recordava as noites tumultuosas da sua mocidade, as palavras grosseiras dos rapazes que cheiravam mal a alcool, os seus gracejos cinicos. Perante taes recordações, o seu coração humilhado confrangia-se compadecido d’ella propria.

Reviveu em pensamento o dia em que o marido pedira a sua mão. Foi durante uma reunião, á noite; elle detivera-a n’um corredor obscuro, obrigava-a á viva força a encostar-se á parede, dizendo-lhe n’um tom cavo e irritado:

—Queres casar comigo?

Ella sentira-se ultrajada; molestavam-na aquelles dedos grosseiros apertando-lhe os seios, aquella respiração offegante que lhe enviava ao rosto um hálito quente e humido. Tentou libertar-se d’aquelle abraço, fugir-lhe...

—Aonde vaes? urrou elle. Responde primeiro!

Ficara silenciosa, cheia de vergonha e de colera.

—Não te finjas embaraçada, pateta! Conheço-as, a todas! No teu intimo, estás satisfeitissima.