Pélagué voltou para dentro de casa; sentou-se á mesa, perto do samovar, agarrou n’um pedaço de pão, examinou-o e tornou a pôl-o lentamente no prato. Não tinha vontade de comer, bem que experimentasse na bocca do estomago uma desagradavel sensação que lhe esgotava as forças, que lhe expulsava o sangue do coração e lhe fazia andar a cabeça á roda.
—Elle deu por mim! dizia ella comsigo, tristemente, no sentimento da sua fraqueza, para poder reagir. Deu por mim... Adivinhou, com certeza!...
E não podia ir mais longe o seu pensamento: fundia-se n’uma prostração dolorosa, n’uma sensação viscosa de enjôo...
O silencio timido, como que acoitado para além das vidraças e que succedera ao borborinho, provava que em toda a villa os habitantes haviam voltado ao antigo torpor medroso e subserviente, e isto mais lhe acirrava a sensação de isolamento em que se debatia, enchendo-lhe o espirito de obscuridade pardacenta e penetrante como cinza.
A rapariguinha abriu a porta e do limiar perguntou:
—Quer que lhe traga uma omelette?
—Não... Já não tenho vontade... Esta gritaria fez-me um mal!...
A pequenita foi até junto da mesa e pôz-se a narrar animadamente, mas em voz baixa:
—Como elle lhe bateu com força, o commissário!... Eu estava mesmo ao pé d’elle; vi tudo... Até quebrou os dentes todos do homem!... E quando o homem escarrava, o sangue vinha muito grosso, muito grosso e escuro!... Nem se lhe viam os olhos!... O sargento está cá. Está embriagado de todo e não faz senão pedir vinho. Diz elle que era uma quadrilha inteira e que aquelle das barbas era o chefe. Apanharam trez, mas um fugiu... E tambem prenderam um mestre escola que andava com elles!... Elles não crêem em Deus e aconselham o povo a roubar todas as igrejas. Aqui está o que elles fazem! Havia homens que tinham dó do tal das barbas, mas outros diziam que se devia dar cabo d’elle!... Sempre ha homens muito maus cá no nosso sítio!
Pélagué escutava attenta esta rápida e entrecortada narrativa; esperava distraír assim o seu desasocego e dissipar a oppressora angustia da espectativa. A pequena encantada com tão bôa ouvinte, tagarelava sempre com crescente animação, comendo as palavras: