—É muito leviano! Faz muita bulha, muita bulha, mas não passa d’ali!

—E seu marido? perguntou Pélagué.

—É um bom homem. Não bebe, e damo-nos muito bem. O unico defeito d’elle é ser de caracter fraco.

Soergueu-se e proseguiu após um silencio:

—De que se precisa agora? De sublevar o povo, é claro! Todos pensam n’isso... mas cada um para seu lado! E o que é necessário é que se fale n’isso bem alto; é forçoso que appareça alguem decidido a fazel-o.

Sentou-se e perguntou sem transição:

—A senhora disse que até já ha meninas finas e ricas a tratarem d’este negocio, e que vão fazer leituras politicas aos operários... E ellas não teem medo? não sentem repugnancia?

E depois de ouvir attentamente a resposta de Pélagué, soltou profundo suspiro e continuou, com as palpebras cerradas e movendo devagarinho a cabeça:

—Já li uma vez n’um livro que a vida não faz sentido. O que isto queria dizer percebi eu logo á primeira! Como se eu não soubesse o que é essa vida: a gente tem umas idéas, mas umas idéas desapegadas umas das outras, e que andam a vaguear como carneiros estúpidos sem pastor... Vagueiam, vagueiam... E não ha nada, não ha ninguem que as reuna... porque a gente não sabe o que ha de fazer para isso! Ora aqui está o que é uma vida que não faz sentido! A minha vontade era fugir para longe d’ella, sem mesmo olhar para traz!... Muito infeliz é a gente quando começa a perceber um poucochinho!...

Esta magua, via-a Pélagué bem no brilho verde dos olhos da mulher, n’aquelle rosto magro; ouvia-a vibrar n’aquella voz. Pretendeu consolal-a, acalmal-a: