—Mas a minha querida amiga compreende o que é necessário fazer-se...

Tatiana interrompeu-a brandamente:

—Mas se o que se precisa é saber-se como fazel-o!... Tem a sua cama pronta... deite-se!

E dirigiu-se para o fogão, grave e concentrada. Pélagué deitou-se sem se despir. Tinha dôres nos ossos, quebrados de fadiga. Soltou um gemido debil. Tatiana apagou o candieiro. E assim que as trevas reinaram dentro da choupana, resoou novamente a sua voz grave e igual:

—A senhora não reza... Eu tambem não acredito em Deus nem em milagres. Tudo isso foi inventado para nos metter medo, porque sabem que sômos estupidos!

Pélagué, no seu leito improvisado, agitou-se, inquieta. Fitavam-na pela janella as trevas infinitas e, por entre o silencio, attritos, ruidos furtivos mal perceptiveis, perpassavam em torno. Com voz timida, murmurou:

—Pelo que respeita a Deus, não sei que dizer... Mas creio em Jesus Christo e creio nas suas palavras:

«Amar o proximo como a nós mesmos...» sim, eu creio n’isto!

E de súbito, exclamou, perplexa:

—Mas se Deus existe, porque nos abandonou? Porque não nos protege com o seu poder misericordioso? Porque consente que a humanidade se divida em duas castas? Porque consente o soffrimento humano, as torturas, as humilhações, a maldade e as ferocidades de toda a especie?