Tatiana não respondeu. No escuro, Pélagué podia divisar-lhe o contorno vago do perfil erecto, que se desenhava em cinzento, no fundo negro do fogão. E assim se conservava, immovel. Muito angustiada, Pélagué cerrou as palpebras.
De súbito, vibrou uma voz fria e dolorida:
—Nunca perdoarei a morte dos meus filhos! Nem a Deus nem aos homens! Nunca!
A anciã sentou-se no leito, condoída da intensidade d’aquella paixão. Lembrou com meiguice:
—A senhora é nova; ainda ha de ter filhos...
Apóz um silencio, a outra segredou:
—Não! O medico disse que nunca mais poderia têl-os.
Passou um rato a correr pelo chão. Um estalido secco e forte rasgou a immobilidade do silencio, e de novo se ficaram ouvindo distinctamente os mesmos attritos e o murmurio da chuva sobre o colmo, que, dir-se-ia, dedos finos e trémulos acariciavam. As bategas caíam tristemente sobre a terra e ritmavam o curso da longa noite d’outono.
Mergulhada em pesada somnolencia, Pélagué ouviu uns passos ecoarem surdamente da parte de fóra e em seguida, no corredor. Abriu-se devagarinho a porta, e ouviu-se uma exclamação abafada:
—Estás já deitada, Tatiana?