Occultou os olhos com a mão, sob pretexto de compôr os oculos, e continuou, passeiando pelo quarto:
—Olhe, sabe que mais?... Assim como assim, haviamos de nos saír mal da empreza!
—Que importa! Pois que seja julgado! disse a mãe de Pavel com o peito a estalar de indefinida angustia.
—Recebi ha pouco carta d’um collega de São Petersburgo.
—Tambem da Sibéria se pode fugir, não é assim?
—Com certeza... O meu collega diz-me que o processo cedo será julgado. O veredicto já é conhecido: o degredo para todos. Ora veja a senhora: aquelles patifes fazem da justiça uma comedia infame!... Está compreendendo? A sentença é lavrada em São Petersburgo, antes mesmo da decisão do jury!
—Não pense mais n’isso, Nicolao! disse Pélagué resoluta. É inutil pretender consolar-me ou explicar-me seja o que fôr!... O Pavel nunca ha de fazer nada que não seja bem feito! E não se ha de apouquentar senão pelo que o mereça!... Aqui, deteve-se para tomar folego.
—Assim como tambem nunca apouquenta os outros... E elle estima-me! Estima-me, sim! Não vê como se lembrou de mim? «Consolem-na», escreveu elle, an?
Batia-lhe forte o coração; a violencia do seu sentir fazia-lhe um tanto andar a cabeça á roda.
—Seu filho é uma bella alma! exclamou Nicolao com voz singularmente vibrante. Estimo-o e venero-o profundamente!