XXV
Sizof retomou o seu logar resmungando.
—Que tens? perguntou-lhe Pélagué.
—Não tenho nada! O povo é estupido... Não sabe nada, vive ás apalpadellas.
Resoou uma campainhada. Alguem annunciou com indifferença:
—O tribunal!
Todos se puzeram novamente de pé, como da primeira vez. Os juizes entraram pela mesma ordem e sentaram-se. Foram introduzidos os accusados.
—Attenção agora! segredou Sizof. Vae falar o procurador.
Pélagué estendeu o pescoço e toda se inclinou para a frente, immobilisada na espectativa do terrivel acontecimento imminente.
De pé, virando a cabeça para o lado dos juizes, o procurador soltára um suspiro e entrára a falar, agitando a mão direita. Pélagué não percebeu as suas primeiras palavras. A voz do orador era facil e grossa, mas, tão depressa lhe affluia com rapidez, como afroixava. As palavras iam-se seguindo primeiro como em larga fita uniforme, depois, voavam, redemoinhavam, tal um enxame de negras moscas sobre um torrão d’assucar. Mas n’essas palavras não via Pélagué coisa alguma ameaçadora ou terrificante. Frias como neve, indecisas como cinza, iam-se succedendo e enchiam a sala de aborrecimento, de alguma coisa horripilante como uma poeira fina e sêcca. O discurso, abundante em palavras e falho de idéas, não chegava provavelmente aos ouvidos de Pavel e dos seus companheiros, os quaes, sem mostrarem a menor preoccupação, continuavam socegadamente a conversar entre si. Umas vezes, sorriam, outras, faziam-se muito sérios para conterem o sorriso.