—Está mentindo! declarou Sizof baixinho.

Pélagué não saberia dizer ao certo se assim era.

Escutava o que elle dizia e compreendia que estava accusando toda a gente, sem se referir directamente a ninguem. Quando citava o nome de Pavel, punha-se a falar de Tédia; em seguida, depois de ter reunido estes, juntava-lhes Boukine. Dir-se-ia que mettia todos os accusados no mesmo sacco, apertados uns contra os outros. Mas o sentido externo das suas palavras não satisfazia Pélagué, como tambem não a perturbava nem mesmo impressionava. Comtudo, continuava esperando o pormenor terrivel, e procurava-o obstinadamente sob aquelle fluxo de palavras, no rosto do procurador, nos olhos, na voz, na mão muito branca que elle balanceava com lentidão. E sentia que estava ali, n’aquelle homem, a coisa assustadora, indefinivel e incompreensivel. De novo se lhe confrangeu o coração.

Olhou para os jurados: o discurso estava-os claramente enfadando. Os seus rostos macillentos, terrosos, inanimados, não apparentavam expressão alguma; eram quaes manchas cadavéricas e immoveis. E aquellas faces, umas de nutrição enfermiça, outras, demasiado magras, sumiam-se cada vez mais em meio do cansaço que invadia a sala. O presidente não fazia um só movimento, estatico e hirto; por vezes, as manchasinhas pardacentas que lhe appareciam por detraz dos vidros dos oculos, sumiam-se-lhe na palidez do rosto. Perante esta indifferença glacial, esta frieza tíbia, Pélagué a si própria perguntava com desasocego:

—Estarão elles verdadeiramente a julgar?

De repente, como de improviso, terminou o procurador o seu libello. O magistrado inclinou-se perante os juizes, a esfregar as mãos. O marechal da nobreza fez-lhe com a cabeça um signal, ao mesmo tempo que rebolava as pupillas. O administrador da communa estendeu-lhe a mão e o syndico contemplou o seu abdomen, risonho.

Mas via-se que os juizes não haviam ficado satisfeitos com o procurador: não tinham feito um só movimento.

—Cão tinhoso! resmungou Sizof.

—Tem a palavra... disse o velhinho, erguendo um papel até junto do rosto. Tem a palavra o defensor de... Fédossief, Markof, Zagarof.

Levantou-se então o advogado que Pélagué vira em casa de Nicolao. Tinha uma cara cheia e aspecto bonacheirão; os olhinhos irradiavam, parecia ter nas orbitas dois pontos acerados, a cortarem no ar qualquer coisa, como laminas de tesoura. Entrou a falar sem pressa, em voz nítida e sonora; mas Pélagué não poude escutar o que dizia. Sizof segredava-lhe de lado: