—Fale só do que diz respeito á sua accusação!

—Mas é justamente o que estou fazendo!... Não deve haver coisa alguma que não interésse á gente honesta... E peço-lhe o obsequio de não me interromper. Assim, pergunto eu aos senhores: qual vem a ser o grau das suas culturas intellectuaes?

—Não estamos aqui para discutir comsigo! Voltemos ao assunto! disse o velho, mostrando rancorosamente os dentes.

Os gracejos de André haviam manifestamente irritado os juizes e como que lhes tinham supprimido o que quer que fôsse das fisionomias. Agora, nos rostos terrosos, appareciam-lhes manchas sanguineas, brilhavam-lhes os olhares com scintillações frias e implacaveis. O discurso de Pavel tambem os havia encolerisado, mas o tom de energia em que fôra dito, reprimira-lhes o rancor e forçára-lhes o respeito. O russo-menor, porém, conseguira quebrar esta contenção e puzera a descoberto o que sob ella se occultava. Com crispações nas fisionomias, os juizes segredavam entre si, tinham gestos mais saccudidos, denunciadores da raiva que lhes ia no íntimo.

—Os senhores educam espiões, pervertem mulheres e donzellas, collocam o homem sério na situação d’um gatuno, d’um assassino, envenenam-no com a aguardente, deixam-no apodrecer nas masmorras!... As guerras internacionaes, a mentira, o deboche, o embrutecimento de todo o paiz—aqui está a vossa civilisação! Sim, somos inimigos de tal civilisação!

—Tenha a bondade!... gritou o velhinho, saccudindo ameaçador o queixo.

Samoílof, rubro, o olhar em fogo, entrou a gritar ainda mais alto do que elle.

—Mas a civilisação que nós amamos e respeitamos é a outra, a que foi criada pelos que vós atirastes para as masmorras ou para os hospitaes de doidos...

—Retiro-lhe a palavra!... Fédia Mazine!

O rapazinho levantou-se de chofre, como uma sovela a saír d’um furo e exclamou com voz saccudida: