Lioudmila alisou com a mão, muito morena, os cabellos penteados em bandós; depois, voltou-se para a janella: palpitava-lhe nas faces uma leve sombra apaixonada.

—Vamos imprimir isso... Quer ajudar-me?

—Certamente!

—Vou compôr o mais depressa possivel. Deite-se; o dia deve-lhe ter sido fatigante. Vê-se que está cansada. Deite-se n’aquella cama, que eu não durmo hoje. Talvez tenha de a accordar de noite, para me auxiliar. Antes de adormecer, apague o candieiro.

Accrescentou duas achas ao lume e saíu pela porta estreita, praticada ao lado do fogão, que tornou a fechar cuidadosamente apóz si.

Pélagué seguira-a com o olhar. E emquanto se despia, pensava maquinalmente na sua hospedeira:

«É um caracter severo... E vê-se que soffre, a pobre senhora!»

O cansaço esvaía-lhe a cabeça; no entretanto, sentia o coração singularmente calmo; no seu espirito, tudo se illuminava com suave e cariciosa luz. Pélagué conhecia já aquella tranquillidade, que segue sempre ás grandes commoções; antigamente, inquietava-a, mas agora, fazia que a sua alma se expandisse, revigorada em forte e puro sentimento. Apagou o candieiro, deitou-se na cama muito fria, encolheu-se, aconchegando a si os cobertores e adormeceu logo em profundo somno.

Quando descerrou os olhos, estava o quarto banhado da claridade gélida e branca d’um desanuviado dia d’inverno. Estendida no canapé, com um livro na mão, Lioudmila fitava-a com uma expressão de ternura que a transfigurava.

—Deus meu! exclamou Pélagué, confundida. Quanto tempo eu dormi! É muito tarde, pois não é?