—Não sei! respondeu, hesitante. Ha momentos em que me parece que sim... mas não é verdade! Ha tantas coisas... coisas espantosas e graves, que se seguem com tanta rapidez umas ás outras!...
Subia-lhe ao peito a onda de excitação que ella conhecia bem, enchendo-lho d’imagens e de pensamentos. Sentou-se na cama e deu-se pressa em revestir de palavras as suas idéas.
—Tudo o que estamos presenceando caminha para o mesmo fim, como o fogo, quando arde uma casa, tende sempre a subir! Aqui, abre caminho, mais além, brilha intensamente, sempre mais violento, sempre mais luminoso... Ha tanta coisa que custa vêr! Se soubesse!... Essa pobre gente soffre, é incommodada, espiada... Batem-lhes, batem-lhes com crueldade... Elles, então, occultam-se a todas as vistas, passam a viver como frades. Quantas alegrias ha que lhe são defezas!... E é triste assim, a vida!
Lioudmila ergueu com vivacidade a cabeça e fitou Pélagué com profundo olhar.
—Não é de si que está falando! observou em voz baixa.
—De mim!... repetiu ella, emquanto se ia vestindo. E póde alguem collocar-se á parte, quando o nosso coração ama alguma coisa, quando este ou aquelle nos é querido, quando se sente medo e compaixão por todos?... Tudo isto se nos entrechoca na alma, attraída assim para cada um d’esses infelizes... Como podemos collocar-nos á parte? Para nos refugiarmos onde?
Já meio vestida, permaneceu um instante pensativa no meio do quarto. E subitamente, afigurou-se-lhe que já não era ella a mesma creatura que tanto se inquietára e alarmára pela sorte de seu filho; tal personalidade já não existia, tinha-se desapegado e afastado d’ella. Escutou-se então a si própria, no desejo de saber o que se passava no seu íntimo, embora receasse despertar outra vez o seu velho sentimento de anciedade.
—Em que está pensando? perguntou-lhe Lioudmila affectuosamente.
—Nem eu sei!
Calaram-se as duas, olharam uma para a outra e sorriram. Depois, Lioudmila abalou do quarto, murmurando: