—Que estará fazendo o meu samovar?

Pélagué olhou então pela janella. Lá fóra, reinava a frialdade d’um luminoso dia d’inverno. Ella, no âmago do coração, sentia tambem uma claridade igual áquella, mas quente. O seu desejo seria falar de tudo; demorada e jovialmente, n’um vago sentimento de gratidão por tudo o que baixára á sua alma, tornando-lha assim bem formada. Sentiu, o que havia muito não lhe succedia, um desejo de rezar. Veiu-lhe então á lembrança um rosto moço e imberbe; na sua memória ecoou uma voz delgada: «É a mãe do Pavel Vlassof...» Scintillavam os meigos olhos joviaes de Sachenka; desenhava-se o negro perfil de Rybine; sorria o rosto valoroso e bronzeado de Pavel; Nicolao piscava os olhos, acanhado. E de repente, todos aquelles rostos amigos foram eclipsados em meio d’um suspiro ligeiro mas de significação profunda; baralharam-se, confundiram-se em uma nuvem transparente e multicolor, que envolvia o coração em um sentimento de paz.

—O Nicolao tinha razão! disse Lioudmila ao regressar ao quarto. Foi preso, não ha duvida possivel! Conforme me recommendou, mandei um rapazito a casa d’elle. Já voltou. Diz que estão lá agentes de polícia escondidos no páteo; que viu um por detraz da porta da rua. Os espiões vigiam ao de redor da casa; o pequeno conhece-os.

—Ah! limitou-se Pélagué a dizer, com um meneio de cabeça. Pobre Nicolao!

—N’estes ultimos tempos, elle fazia muitas prelecções aos operários da cidade; estava desmascarado; era tempo e mais que tempo que desapparecesse! proseguiu Lioudmila em tom sombrio mas sereno. Os companheiros andavam sempre a dizer-lhe que saísse da cidade; elle não quiz dar-lhes ouvidos!... A minha opinião é que, em taes casos, o que se deve não é aconselhar as pessôas, mas obrigal-as!

Á porta appareceu um rapazito de cabello preto, pelle rosada, nariz aquilino e bonitos olhos azues.

—Quer que traga o samovar? perguntou com voz sonora.

—Traz, sim, Sérgio, se fazes favor. É meu discipulo... Não o conhecia?

—Não.

—Tenho-o mandado algumas vezes a casa do Nicolao.