—Aqui tem porquê! expôz o doutor com voz precipitada e desigual. Vocemecê desappareceu de casa uma hora antes da prisão do Nicolao. D’aqui a pouco, vae ser vista lá na fabrica, onde é tão conhecida. Logo depois de lá chegar, entram a apparecer os folhetos revolucionarios... Tudo isso são indícios que se lhe vão apertar na garganta como um laço corredio...
—Mas é que não hão de dar por mim! objectou ella com animação crescente. Se fôr presa quando de lá voltar, e me perguntarem onde estive...
Interrompeu-se um momento e proseguiu:
—Sempre hei de achar resposta! Por exemplo: posso ir da fabrica directamente ao arrabalde. Conheço lá um sujeito chamado Sizof. Pois digo que logo em seguida ao julgamento fui para casa do Sizof, por me achar incommodada com o desgosto soffrido... Tambem elle está muito pezaroso: o sobrinho foi condenado juntamente com o Pavel!... Digo que estive todo este tempo em casa d’elle, e elle ha de confirmar o que eu disser... Bem vêem!
E porque os sentisse cederem aos seus argumentos, esforçava-se por convencel-os e falava com crescente calor. Por fim, acquiesceram.
—Que se ha de fazer? Pois vá! concordou o doutor, mas de má vontade.
Lioudmila conservava-se em silencio; passeava pelo quarto, meditativa. O rosto assombreára-se-lhe, as faces haviam-se-lhe cavado; os músculos do pescoço pareciam ter-se distendido, como se a cabeça se tivesse bruscamente tornado mais pesada e tombasse irresistivelmente para o peito.
O forçado consentimento do doutor arrancára a Pélagué profundo suspiro.
—Andam todos a animar-me! disse, sorrindo. Mas os senhores são os primeiros que não se poupam!
—Isso não é assim! replicou o doutor. Poupamo-nos todos; temos o dever de nos poupar. E as nossas censuras nunca serão demasiadas para aquelles que se expõem inutilmente! Por consequencia lá se lhe irão levar os folhetos á estação.