—Deveriamos escrever-lhes, não acham, para que saibam que teem na Russia, tão distante, amigos, operarios que professam a mesma religião que elles, companheiros que teem o mesmo fim, e rejubilam com as suas victorias...
E, com o sorriso nos labios, falava-se durante muito tempo dos francezes, dos inglezes, dos suecos, como de entes queridos, em cujas felicidades e soffrimentos se tomava parte.
No pequeno quarto nascia assim o sentimento do parentesco espiritual, unindo os operarios de aquella terra da qual elles eram ao mesmo tempo os senhores e os escravos. Esta confraternidade, que lhes dava uma só alma, impressionava Pélagué, e embora ella lhe fosse inaccessivel, fazia-a elevar se sob a influencia d’aquella força alegre, triunfante, embriagadora e cheia de mocidade, acariciadora e cheia de esperanças.
—No meio de tudo, como os srs. são! disse ella um dia ao russo-menor. Para os srs., todos são companheiros: os judeus, os armenios, os austriacos... Falam d’elles como se falassem de amigos, entristecem-se e alegram-se com o mundo inteiro!
—Sim, mãesinha! exclamou elle. O mundo é nosso! o mundo é dos operarios! Para nós não ha nações, nem raças! ha somente companheiros e... inimigos. Todos os operarios são nossos amigos; todos os ricos, todos os que teem auctoridade, são nossos inimigos. Quando se olha para a terra com bons olhos, quando se vê quanto nós, os operarios, somos numerosos, que poder espiritual nós representamos, sente-se o coração invadido pela alegria e pela felicidade, como na celebração de uma festa solemne. O francez e o allemão teem o mesmo sentimento, e os italianos tambem rejubilam. Somos todos nascidos da mesma mãe, da grande, da invencivel idéa da fraternidade operaria, em todos os paizes da terra. Desenvolve-se, aquece-nos com o seu calor, é o segundo sol no ceo da justiça; e este ceo está no coração do operario. Qualquer que elle seja, seja qual fôr o seu nome, o socialista é nosso irmão em espirito, agora e para sempre, por todos os seculos dos seculos!
Esta exuberancia infantil, esta fé luminosa e inabalavel manifestava-se de mais em mais no pequeno grupo, n’uma força crescente.
E quando Pélagué via esta alegria, sentia instinctivamente que na verdade viera ao mundo o que quer que fosse grande e resplendente, como um sol semelhante ao que via no ceo.
Ás vezes, cantavam, alegremente e a plenos pulmões, canções familiares; por outras, aprendiam novas canções, tambem melodiosas, mas com musica melancólica e fóra do vulgar. Então, abaixavam a voz, as fisionomias tornavam-se graves, pensativas, como ao som de um hymno religioso. Os rostos tornavam-se pallidos, os que cantavam animavam-se, e sentia-se que uma grande força se occultava sob as palavras sonoras.
Uma d’aquellas canções principalmente perturbava e inquietava Pélagué. Não traduzia os gemidos, as preplexidades da alma ultrajada que vagueia solitaria nos atalhos obscuros das incertezas dolorosas nem dos gritos da alma incolor e informe assaltada pela miseria, embrutecida pelo medo. Não repetia os languidos suspiros do ser avido de espaço, nem os gritos de provocação da audacia fogosa prestes a destruir o mal e o bem, indifferentemente. O cego sentimento da vingança e do odio, capaz de aniquilar tudo, impotente para crear, não apparecia então; não havia em taes canções qualquer vestigio do antigo mundo, do mundo dos escravos.
As palavras rispidas, a melodia austera não agradavam a Pélagué, mas havia n’aquellas canções uma como força immensa que abafava o som e as palavras, despertando no coração o presentimento de alguma coisa grandiosa para o pensamento. Pélagué via isto nos rostos, no olhar dos novos, e, cedendo áquelle poder misterioso, escutava sempre a canção, duplamente attenta, com inquietação profunda.