—Tenho, muito!

—Não deves ter medo. Não serviria de nada. Nem sequer preparaste o samovar?!

Ella ergueu-se, e, mostrando os livros, explicou, embaraçadamente:

—Era por causa delles...

O russo-menor e Pavel desataram a rir, o que a tranquillisou em parte. Depois, o filho pegou em alguns dos volumes e saíu para ir escondel-os no pateo; André dispoz-se a accender o samovar, e foi dizendo:

—Nada ha terrivel n’isto; o que faz envergonhar uma pessoa é pensar que haja quem se occupe d’estas coisas. Hão de vir por ahi uns homens vestidos de cinzento, com um sabre á cinta, esporas nos calcanhares, e rebuscarão por toda a parte. Espreitam para debaixo das camas, e do fogão; se ha adega, descem á adega; se ha sotão, sobem ao sotão. As teias d’aranha caem-lhes nos focinhos, e elles espinoteiam. Enfadam-se, envergonham-se, e por isto fingem-se muito maos e mostram-se furiosos contra a gente. O seu emprego é porco, e elles bem o sabem. Uma vez, foram dar busca á minha casa, não encontraram coisa alguma e... elles ahi vão! D’outra vez, levaram-me comsigo. Metteram-me depois na cadeia, onde estive quatro mezes. De tempos a tempos, iam buscar-me e faziam-me atravessar as ruas no meio de uma escolta de soldados. Perguntavam-me toda a casta de coisas. Não são creaturas intelligentes, não sabem falar com criterio. Depois diziam aos soldados que me levassem outra vez para a cadeia. E aqui está como fazem de nós gato sapato. Emfim, teem que ganhar os seus ordenados!... Acabaram por pôr-me na rua. E prompto!

—Que maneira de falar, meu André! exclamou Pélagué mal-disposta.

Ajoelhado em frente do samovar, o russo-menor soprava com toda a força pelo canudo; levantou a cabeça, mostrando a cara avermelhada pelo esforço e perguntou alisando com as duas mãos o bigode:

—Como é então que eu falo?

—Como se nunca o tivessem offendido.