Elle ergueu-se, approximou-se de Pélagué, e, tendo abanado a cabeça, disse, sorrindo:
—Ha por acaso alguem n’este mundo que não tenha sido offendido? É que tanto me ultrajaram já, que me cansei de encolerisar-me. Que fazer, se os mais não podem proceder d’outra maneira? Os ultrages incommodam-me muito, impedem-me de realisar a minha obra... mas não os podemos evitar, e, se pensamos n’isso, perdemos o nosso tempo. A vida é assim! D’antes zangava-me contra essa gente; depois, quando me veio a reflexão, vi que todos elles tinham o coração despedaçado. Cada qual tem medo de ser o primeiro a atacar. A vida é assim, mãesinha!
As palavras soltavam-se-lhe tranquillamente e faziam extinguir-se a anciedade de Pélagué. Os olhos polpudos d’elle sorriam, luminosos e tristes; todo o seu corpo era flexivel, elastico, embora como desengonçado.
Ella suspirou e disse com calor:
—Deus o faça feliz, meu André!
O russo-menor voltou para o samovar, ajoelhou-se outra vez e murmurou:
—Se me derem a felicidade, não a recusarei; mas não a peço e nunca irei buscal-a.
E pôz-se a assobiar.
Pavel voltou do pateo.
—Não encontrarão coisa alguma! affirmou, convencido.