Era necessario q́ o Senhor Patriarcha tomasse a posse pessoal, e que fizesse entrada publica na sua Igreja, como dispoem o Ceremonial dos Bispos. Para esta funcçaõ, verdadeiramente magestosa, se destinou a tarde de Sabbado 13. de Fevereiro do anno jà dito de 1717. Da Quinta do Duque de Aveiro, sita nas visinhanças da Parrochia de S. Sebastiaõ da Pedreira, sahio o Senhor Patriarcha para a Igreja deste Santo, aonde o esperava montado a cavallo, toda a Nobreza de Portugal, e tomando o Coche, veyo marchando com todo este lusido acompanhamento atè à Igreja de Santa Martha, aonde apeando-se, tomou a Capa Consistorial, e pondo-se a cavallo continuou a marcha atè às portas de Santo Antaõ, em que estava levantado hum excellente, e bem adornado Altar. Aqui deixada a Capa Consistorial, se revestio de Pontifical com Capa, e Mitra de tella branca, e montando em huma mula ruça, cuberta com huma gualdrapa de tella branca, o levou de redea seu Irmaõ D. Luiz de Almeida Conde de Avintes; ao sahir das portas de Santo Antaõ, o receberaõ de baixo de hum Pallio de preciosa tella os Vereadores dos Senados de ambas as Lisboas, e desta sorte, por entre duas alas, que formavaõ as Communidades Religiosas, as Confrarias, e Irmandades de Lisboa Occidental, chegou à Santa Basilica Patriarchal, dando-se fim a esta vistosissima Ceremonia com o Hymno Te Deum Laudamus, solemnissimamente cantado.

Depois da posse começou logo a exercitar a Dignidade de Capellaõ Mòr, que como consta da mesma Bulla Aurea, ha de andar annexa a quem tiver a de Patriarcha de Lisboa Occidental; e para lhe naõ faltar a authorizadissima circunstancia de Conselheiro de Estado, foy S. Magestade servido fazer-lhe dentro de poucos dias aquella mercè.

Tratou de visitar a sua Diocesi, obrigaçaõ a que satisfez pessoalmente, como quem sabe o quanto emenda mais a vista, do que as informaçoens, naõ cessando depois em tempo algum de mandar Visitadores, que reformem os vicios com caridade, e naõ estrondo, porque as culpas, em quanto naõ degeneraõ em obstinaçaõ, melhor se remedeaõ com a suavidade, que com o rigor.

Para o sitio de Rinhafolles, que he contiguo ao Convento de Santo Antonio dos Capuchos, se haviaõ mudado os Padres da Missaõ, cujo principal instituto he ensinar as Ceremonias Ecclesiasticas aos Ordinandos. Sobre os principios desta obra entrou o Senhor Patriarca a fazer nova despeza, e se vay continuando hum edificio, em que possaõ naõ só viver commodamente os Padres, mas tambem o grande numero de pessoas, que concorrem a aprender o Ministerio do Altar, e a fazer algumas vezes a utilissima devoçaõ dos Exercicios Espirituaes, para o que mandou levantar no interior da Casa hum Oratorio, que naõ cede na grandeza ao primor do seu ornato.

No anno de 1721. deo o Senhor Patriarca o dezejado principio à clausura do Mosteiro de N. Senhora dos Remedios de Campolide de Religiosos da Ordem da Santissima Trindade, para o que mandou ao seu Vigario o Illustrissimo D. Joaõ Cardoso Castello Arcebispo de Lacedemonia, que fosse benzer a Igreja, e logo sem mais dilaçaõ, sahiraõ as quatro Fundadoras do Convento de Santa Marta em 25. de Junho de 1721. Foraõ as Fundadoras a Madre Izabel Maria das Montanhas para Prioreza, a Madre Maria Jozefa de S. Filippe para Sub-Prioreza, a Madre Antonia Thereza de Jesu para Mestra da Ordem, que he o mesmo, que Mestra de Noviças, e a Madre Eufrasia Maria do Sacramento para Porteira.

Disposto tudo o que era preciso para a entrada das Noviças, na tarde de 2. de Julho de 1721. em que se celebra a Visitaçaõ de N. Senhora a Santa Izabel, com assistencia da Rainha N. Senhora, e da Senhora Infanta Dona Francisca, e de muita parte da Nobreza, e de hum extraordinario concurso de povo, se lançou o habito às primeiras Noviças, dando todos graças a Deos por verem concluida huma obra, a que havia pouco menos de hum seculo, que se lhe dera principio.

Mandou o Senhor Patriarca fazer Constituiçoens, que elle mesmo confirmou em 26. de Junho de 1721. as quaes se compoem de nove Titulos, que comprehendem cincoenta Capitulos, e se imprimiraõ em Lisboa Occidental na Officina de Jozè Antonio da Sylva em 1726. em quarto.

Tambem para as Religiosas Descalças de N. Senhora da Conceyçaõ da Luz, que he da jurisdicçaõ ordinaria, e fundado pelo piissimo Varaõ Nuno Barreto Fuzeiro, àlem da Regra approvada pelo Papa Julio II. e modificada por Innocencio XII. mandou fazer Constituiçoens, que constaõ de 37. Capitulos, que confirmadas em 8. de Julho de 1727. se imprimiraõ na mesma Officina no dito anno em quarto.

Tem a Mitra de Lisboa huma Quinta no lugar de Santo Antonio do Tojal, cuja Igreja, como diz a tradiçaõ, fez o Arcebispo D. Fernando de Vasconcellos, e lhe começou huma Torre, que depois acabou o Arcebispo D. Miguel de Castro. Com o progresso do tempo, e descuido estava esta Quinta, e Palacio quasi arruinado, e o Senhor Patriarca a tem restituido, e renovado de sorte, que Igreja, e Palacio saõ dignissimos de se verem, naõ só pela grandeza, como pelo bom gosto.

Faltava a este grande Prelado a Purpura Romana, e no Consistorio de 20. de Dezembro de 1737. o creou Cardeal Clemente XII. e lhe mandou o Barrete por Monsignor Julio Saccheti Sobrinho de Monsignor Cavallieri Nuncio em Portugal, que chegou a esta Corte em 3. de Mayo de 1738. Foy esta noticia summamente estimada, e applaudida por toda a Corte, e povo, celebrando o premio das grandes virtudes, que venera no seu Prelado.