Card. D. José Manoel
... D. Francisco de Saldanha
... D. Paulo de Carvalho
... D. Joaõ Cosme da Cunha
... D. Fernando da Silva e Menezes
... D. Joseph Francisco da Mendoça
AO MUITO ALTO,
E MUITO PODEROSO
Rey de Portugal
D. JOAÕ III.
DESTE NOME
PANEGYRICO
DE
JOAÕ DE BARROS
Anno de 1533.
Naõ sem causa (muito alto, e muito poderoso Rey, e Senhor) costumavaõ nos tempos antigos, louvar os excellentes homens em sua prezença, porque dando louvor justo, e manifesto ao grande merecimento das pessoas; assim os presentes, como os que viessem depois, tomassem exemplo, e fizessem taes obras, com que merecessem o mesmo louvor, e para os nomes dos taes ser mais celebrados sohiaõ nas mòres festas, e ajuntamentos do povo publicar os taes louvores, que por esta razaõ chamaraõ Panegyrico, que quer dizer ajuntamento. Com este fundamento às mezas dos Principes, e grandes Senhores se cantavaõ antigamente em metro os feitos notaveis dos grandes homens, donde primeiro nasceo a poezia heroyca, e segundo eu tenho ouvido, ainda neste tempo os Turcos em suas cantigas louvaõ os feitos darmas, e cavallarias de seus Capitaens, o que se fosse uzado em Espanha, e em toda a Europa (se me eu naõ engano) mais proveito da tal Musica nasceria, do que nasce de saudosas cantigas, e trovas namoradas; mas se o principal fundamento dos que compoem chronicas, e escrevem as cousas passadas, he fallar verdade, sem duvida a invençaõ do Panegyrico he de mòr authoridade, que outra maneira de historias; por quãto o Panegyrico faz sempre fé do que ve, e o representa aos olhos; a historia pela mòr parte trata do que ouve, e isto encomenda à memoria; por esta causa, segundo o exemplo dos antigos, direy neste alguma parte das grandes, e Reaes virtudes de V. Alteza, (empreza por certo digna de muy grande, e alto estillo;) Mas se eu naõ puder chegar taõ alto, e as palavras àquem do dezejo, espero que me valerà adiante delle, ser minha vontade tal, que quiz antes porse ao perigo, que leyxar de fazer o que podia. Hum só trabalho sinto nesta obra serem tantos os seus notaveis feitos, e virtudes, que querendo eu dizer tudo, seria mais compor Chronica, que Panegyrico; e naõ leixando parte, naõ satisfaria a meu dezejo.
Mas em fim destes dous contrarios hey por mais seguro leyxar muita parte para outro tempo, buscando brevidade na copia por naõ exceder o modo, pelo qual naõ me deterey aqui em contar as grandes virtudes, que logo mostrou do começo de sua mocidade atè o principio de seu Reynado; leyxarey de escrever com quanta prudencia, com quanto esforço, depois do falecimento do muy victoriozo, e de bemaventurada memoria ElRey D. Manoel seu Pay levou àvante a Conquista, e Navegaçaõ da India, descobrindo novos mares, novas terras, novas estrellas, dando materias de cousas taõ notaveis aos livros dos Cosmografos, passando àlem da memoria de todas as historias, e fabulas, estendendo suas bandeiras na mais derradeira parte do Oriente, saõ certo estas cousas dignas de immortal memoria, e lembrança para sempre; mas a tençaõ da obra prezente naõ poderà com tanto pezo; tempo virà (se me o dezejo naõ engana) em que possa dizer tudo (segundo requere taõ alta empreza, e meu engenho), quanto elle for a isto só està offerecido em latim, em lingoagem, em proza, e metro louvar sempre as grandes victorias destes Reynos, os quaes neste tempo saõ mais bemaventurados, que nunca foraõ; e porque nesta esperança vivo, e ella me sostem, em quanto se me naõ offerece mòr occasiaõ, ao menos enganarey meu appetito com estes começos, e representarey neste Panegyrico alguma parte da virtudes de V. Alteza, por onde facilmente se possa ver, quantas, e quam grandes o saõ as outras, que nelle hà.
Antre as virtudes de que os Principes, e Governadores das Reespublicas tem mòr necessidade, para descanso, e conservaçaõ de seus Estados, sempre o primeiro lugar foy dado à Justiça; e isto com muita razaõ, porque sendo Deos perfeita Justiça, os Reys que por elle saõ ordenados, e cujo poder representaõ, a elle soo em tudo devem seguir, e delle (como excellente pintura) tomar o debuxo, que cumpre a perfeiçaõ de seu ensino; pois se bem olharmos quam justamente estes Reynos saõ governados por V. Alteza, e quanto do principio do seu Reynado trabalhou sempre por apurar cada dia mais esta parte, certo saõ que com grande trabalho poderiamos achar algum Principe, que com elle neste tempo se podesse comparar: he virtude por si muy grande fazer, como faz, a todos justiça igual sem affeiçaõ de pessoas, determinar tantos negocios, e dar grandes sentenças sem escandalo de ninguem, mas olhando de quam pequena idade isto começou, que muitos Principes no cabo de sua vida naõ puderaõ alcançar; vem isto a ser tanto mòr virtude, que naõ hà louvor tamanho, que com muita razaõ lhe naõ possa, e deva ser dado; outros Principes, ou sendo velhos, ou depois de longa experiencia acabaraõ de saber governar, V. Alteza no começo do seu Reynado, sendo pouco mais de dezanove annos em tanta justiça governou, e procurou o bem, e descanso de seu povo, como se longa pratica, e costume de muitos annos o tiveraõ já ensinado.
Com muita razaõ digo isto, pois por minha boa sorte saõ hum daquelles que se lograõ deste tamanho bem, e se cumpre, o Rey foy verdadeiramente julgado pelo povo, e o povo pelo Rey; porque assim como os que pintaõ as terras pelo natural para contemplarem o sitio dos lugares altos se poem no baixo; e polo contrario para olharem os baixos se poem no alto, assim para conhecer bem a natureza dos povos convem ser Principe, e para conhecer a dos Principes convem ser do povo; nem hey medo, que me chame ninguem lizongeiro, sendo a verdade, e consentimento da minha banda, e aproveitando-se todos do bem, que digo; isto quanto he mais raro, e menos jà se usa, tanto mais se devem chamar ditosos os subditos de V. Alteza. Que direy da continua vigia, que usa nas cousas de justiça, com quanto conselho, com quanta prudencia sem cançar nunca, peza tudo em balança igual, hora as cousas mais pequenas, mandando julgar a seus Letrados, hora as mayores, determinando em sua presença, às vezes inventando novas, e muy proveitosas Leys à sua Repupublica, outra hora emendando, e corregendo as não boas, chamando Letrados com grandes premios, ordenando Officiaes novos para mais comprimento de justiça, e os mores carregos dando aos melhores, sem duvida este he o verdadeiro officio de Rey, e pay geral de todos.
Isto he o que Deos, e nossa Santa Fè encomenda aos Principes, como verdadeiramente dizem os Filosofos. Reynado he officio de muita vigia, e trabalho, nem deve nunca o bom Rey estar ocioso, mas assim como o Sol por dar claridade ao mundo nunca està quieto, assim o Principe por fazer justiça ao povo sempre deve ser occupado, lese do Emperador Cesar Octaviano, que com muito cuidado de noite, e de dia despachava as cousas de justiça, e do Emperador Trajano se conta o mesmo, tanto que parecia, que cada dia hum delles descançava com este trabalho. E tinha ElRey Ciro, que o bom Principe naõ havia levar ventagem a seus Vassallos em boa vida, se naõ em muito trabalho para comprimento de justiça: com o mesmo respeito sóhia dizer Alexandre Magno, que o bom Rey devia sempre ter huma orelha aberta para quem quizesse accusar, e outra guardada para quem era accusado, e assim dizia que o melhor verso de quantos Homero (Poeta Grego) fizera, era hum em que ElRey Agamenon era gabado de bom Cavaleiro, e justiçoso.
Aquelle Principe com muita razaõ deve ser chamado excellente, que dà o seu a cada hum (que este he o principal officio da justiça) e que ouve, e despacha bem as partes, e que vive segundo as Leys, que elle mesmo ordena, e hà por boas, nem pode dar muita authoridade ao direito quem em si o naõ quer cumprir inteiramente; por isso quer Plataõ, que o Principe obedeça em tudo às suas Leys; e diz que onde a Ley he sugeita ao Rey, e naõ o Rey a ley, se deve recear, que aquelle Reyno se perca muy azinha; porque quando governa a ley, governa Deos (o que naõ pode ser se tudo manda pelos apetitos de hum homem) mas quanto desviado V. Alteza seja deste mal, notorio he a todo o mundo, o qual sómente governa os seus Reynos, com tanto cuidado de justiça, como se todas fossem sua propria Casa, mas ainda se mostra taõ justo, e obediente às suas leys, que naõ menos nos aproveita com o virtuoso exemplo, que de si nos dà, que com a execuçaõ dellas, e faz isto assim por sua inclinaçaõ ser em tudo santa, e muy chegada a Deos, como por saber certo, que quem ha de governar a muitos, e como diz Homero: quem ha de ser Pastoral de seu povo, cumprelhe ser limpo, e afastado de todo o vicio, e assim como nenhuma cousa mais aproveita ao povo, que o bom exemplo do Principe; assim naõ hà cousa mais prejudicial ao Vassallo, que o mào costume, ou deffeito do Senhor; porque este tanto mais asinha se aprende, que o bem, quanto os homens saõ mais inclinados ao mal, e finalmente sempre se vio assi como as ondas do mar seguem o vento assi o povo seguir as manhas do Principe.
Os costumes de quem manda (sendo a pessoa illustre) quer bons, quer màos, mal se podem esconder; antes faraõ todos os Reys conta, que estaõ postos em hum lugar alto, como a atalaya donde vem, e saõ vistos de todo o povo, e se me dessem a escolher, tomaria antes no Principe màs leys com bom exemplo, que naõ mào exemplo com santas ordenaçoens; e naõ fora taõ louvado Cataõ Uticense de bom Cavalleiro, se a isto naõ ajuntara grande perfeiçaõ de vida, a qual em tudo foy heroyca. Contaõ delle, que em todalas cousas guardou singular temperança, e seguio a natureza, e teve sua vida offerecida ao bem da patria, nem lhe parecia, que nascera saõ para si, senaõ para todo o mundo, foy Conservador de toda a justiça, e honestidade; pois se Cataõ Cidadaõ de Roma por dar bom exemplo de si, conservando a justiça, e leys de sua Cidade mereceo louvor immortal, que gloria deve ser a de V. Alteza, governando taõ santa, e justamente tantos povos, e desvairadas Provincias, aproveitando com seu exemplo a tantas gentes, que delle (como de seu natural Rey, e Senhor) o folgaõ de tomar: sem duvida tanto mais louvor merece, quanto sempre foy mòr a fama de bom Principe, que da pessoa particular. Era Cataõ justo, porèm aspero em toda a administraçaõ da Reepublica, por onde era mais louvado, que bem quisto, V. Alteza sempre temperou sua Real gravidade com muita humanidade, e clemencia, de tal maneira soube ajuntar cousas em si taõ differentes, que nem por ser muito brando leyxa de ser temido, nem por ser muito grave leyxa de ser amado.