Escreve-se que havia em Roma hum mancebo nobre chamado Cayo Valerio Flacco, que sendo muy vicioso, era malquisto de todo o povo, aborrecido de seu mesmo irmaõ, e parentes, o que vendo Publio Licinio Sacerdote mayor, pessoa naquelle tempo singular, e de grãde authoridade dezejãdo muito de emendar huma taõ deshonesta vida, o constrangeo por razaõ de seu officio a q́ fosse Sacerdote de Jupiter, o que posto, que logo no principio parecesse estranho a Cayo Valerio, com tudo depois que se deu ao cuidado das Ceremonias, e cousas Sagradas, em breve tempo se esqueceo da vida passada, e se fez taõ virtuozo, que em toda a Cidade de Roma senaõ achava pessoa mais virtuosa, e honesta, finalmente tanto foy o preço, e estimaçaõ de sua virtude, que lhe foy concedido, que os Sacerdotes de Jupiter dali por diante podessem entrar, e ter assento no Senado, cousa, que athe entaõ nenhum outro Sacerdote podera alcançar.

Pois se a Religiaõ dos Gentios reprovada, e falsa tinha poder polo apartamento dos vicios, e limpeza do espirito de cauzar tanta perfeiçaõ a quem a seguia, quanto mais se deve isto d’esperar da verdadeira Fè de Christo? Por certo Principe Christaõ, que bem conserva esta parte, naõ somente a si, mas a todo o povo, que lhe obedece, e toma seu exemplo, aproveita muito, e tanto mais com esta virtude, que com as outras, quanto he esta mais chegada, e espiritual a Deos, posto que se bem queremos olhar, encadeadas, e tecidas estaõ todas as virtudes antre si, que aonde ha perfeita justiça, tambem ha perfeita paz, e amor do proximo, nem pode aver perfeita paz, sem perfeita Religiaõ. Santa tençaõ era a d’elRey Abias de Judà filho de Roboaõ, o qual naõ sendo mais que de 18.annos, estando para dar com pouca gente batalha a Jeroboaõ Rey dos dez Tribus, que trazia muito mòr exercito, esforçava aos seus, dizendo: que naõ temessem, porque sendo Jeroboaõ injusto, e desprezador da verdadeira Ley, por mais gente que tivesse, naõ poderia vencer, e que pois o fundamento da vitoria estava na justiça, e amor de Deos, que conhecido era a qual das partes se avia mais d’inclinar: isto dizia em seu favor, e da gente do seu Exercito, que antaõ guardavaõ a Ley inteiramente.

Sabida cousa he com quanto cuidado os Romaõs guardavaõ sua falsa Religiaõ, e de crer he, que mais devotos foraõ da verdadeira, se della tiveraõ conhecimento. Escrevem delles, que tinhaõ sobre tudo respeito a naõ jurarem falso: nomeado he o exemplo de Marco Atilio Regulo Capitaõ dos Romaõs, o qual sendo captivo na Cidade de Carthago, e mandado a Roma por parte dos Carthaginenses a fazer huma troca de cativos antre Roma, e Carthago, com juramento, que não acabando nada se tornasse à prizaõ, Regulo depois de vir a Roma, e naõ acabar nada com o Senado daquillo a que viera, podendo ficar na patria, para o que era requerido de todos, e sua mulher, e filhos, e parentes com muitas lagrymas, com tudo quiz antes tornarse a entregar, sabendo certo, que havia de ser morto com asperos tormentos, que naõ ficando em Roma haver de quebrar seu juramento: tambem se escreve, que depois da batalha de Canas em que Anibal desbaratou os Romaõs, vindo à noticia de Scipiaõ, que depois foy chamado Africano, como alguns Mancebos Fidalgos Romaõs desesperando jà da sua Reepublica se queriaõ passar a Sicilia, Scipiaõ os foy logo buscar, e com hum punhal a cada hum nos peitos os fez jurar, que naõ se partiriaõ, nem leixariaõ em tal tempo a Reepublica, e este juramento ainda que fosse com medo, e por força, com tudo foy por elles guardado inteiramente: sem duvida muito necessario he o temor de Deos, e do outro mundo para a conservaçaõ de qualquer Estado, porque o bom Principe por força ha de acatar o temor de Deos, e o seu acatamento dura para sempre. Numa Pompilio, de que jà tratey, e Solon, que deu ley aos Athenienses, e Licurgo, que as deu aos Espartanos, em nenhuma cousa mais se fundavaõ, que em dar grande authoridade às Religioens, sem as quaes viaõ, que nenhum ajuntamento, nem Reepublica podia durar muito tempo.

Le-se de Cyro primeiro Rey de Persia, e Media, que foy Religioso, e devoto, e assi elle como todos os Reys seus successores mandaraõ aos Sacerdotes, e Levitas dos Judeos, que os encomendassem a Deos no Templo, e por este respeito se haviaõ bem com elles, por onde creo eu, que suas cousas hum tempo foraõ tanto àvante. Aquelle graõ Rey Xerxes da Persia, espanto do mundo, que contra Grecia armou hum milhaõ de homens passou hum privilegio de grandes liberdades em favor dos dez Tribus, que entaõ moravaõ nos Reynos de Persia, e Media alèm do Rio Eufrates, e foraõ là passados por ElRey Salmanasar depois de ter vencido ElRey Osias: este privilegio foy entregue a Esdras Judeo naquelles tempos justo, e de muita authoridade o qual o mandou aos dez Tribus; escreve Jozepho, que por este respeito os Judeos ganharaõ grande affeiçaõ a ElRey Xerxes, e alguns se vieraõ com casas movidas a Babilonia para dahi se passarem a Jerusalem, com tudo os mais delles por amor de taõ bom Principe se não quizeraõ mudar, por onde diz o mesmo, que ainda em seu tempo naõ havia mais no Imperio dos Romãos, que dous Tribus, e que os outros dez viviaõ alèm do Rio Eufrates, onde multiplicavaõ sem nenhum conto; mas de todos os Principes Gentios, que foraõ devotos do Testamento Velho, ninguem mereceo ser taõ louvado como Ptolomeu Philadelpho Rey do Egypto, porque desejando muito de entender a Ley dos Judeos mandou a Jerusalem pedir a Eleasar Principe dos Sacerdotes alguns Letrados, que lha viessem declarar, o qual lhe mandou os setenta e dous interpretes, seis de cada Tribu, e com elles a Biblia, que estava guardada no Templo, e vendo ElRey o livro em que estavaõ escritas todas as Leys de Moysés com letras de ouro, maravilhado da formosura da letra, da delgadeza do pergaminho, e sutileza da encadernaçaõ, deu muitas graças a Deos, e chorando com prazer dizia, que dalli por diante saberia reynar.

Este Rey mandou resgatar, e dar liberdade a todos os Judeos, que achassem cativos no Reyno de Egypto, pagando por elles todo o preço aos Senhores, e foraõ livres assy mais de cem mil pessoas, e naõ se contentando desta só magnificencia, mandou offerecer no Templo muitas peças d’ ouro, e prata de grandissima estima, huma das quaes foy aquella Mesa taõ nomeada cuberta de perolas, e pedras preciosas, em que se haviaõ de pòr os doze pães da proposiçaõ. Foy tanta a sua devaçaõ, que em quanto se esta Mesa lavrava, elle per si a hia ver muitas vezes, porque com sua presença mais cedo, e mais perfeitamente se acabasse. Teve Philadelpho com esta virtude outras muitas, foy engenhoso, prudente, liberal, e os mais dos privados, que tinha, eraõ grandes Letrados, e certo huma taõ excellente parte naõ podia estar desacompanhada d’outras muitas, como verdadeiramente diz Plutarco, o Rey he Imagem de Deos, o Rey novo representa ley nova, por isso cumpre muito ao bom Principe ter quatro cousas saber, bondade, poder, e temor de Deos, nas quaes se bem olharmos consiste o bem de todo hum Reyno: estas havia todas em Cesar Augusto Emperador de Roma (a quem naõ minguava nada para ser perfeito Principe, senaõ o conhecimento do verdadeiro Deos) e foy taõ pacifico, taõ justo, taõ quieto seu Imperio, que em seus tempos quiz vir ao mundo a tomar carne nosso Salvador. Antre as virtudes, que neste Emperador havia, nenhuma foy mais louvada, que a Religiaõ, que como jà disse, mais perfeitamente se mostra no tempo da paz: escrevem delle, que ordenou muitos sacrificios em Roma, que per si mesmo celebrava, edificou magnificos Templos, e Casas d’oraçaõ, huma das quaes ainda hoje dura, feita em nome de Marco Agrippa, que foy depois dedicada a Nossa Senhora, que chamaõ a Redonda, e porque o Conselho (a que os Romaõs chamavaõ Senado) senaõ podia fazer senaõ em templo consagrado, ordenou que todo o Senador antes, que nelle entrasse, sacrificasse àquelle idolo, em cuja Casa se haviaõ de juntar, o que fez por cada hum, tendo mòr acatamento à Religiaõ desse seu parecer mais desenganadamente, e sem algum respeito, nem affeiçaõ, sem duvida santa tençaõ de Principe era esta querer começar todas suas cousas de Deos, se como jà disse este seu trabalho fora empregado no amor da verdadeira Religiaõ, e cousa justa he, pois Deos he principio de todalas cousas, que a elle sempre ponhamos diante no começo de todas nossas obras, e por este respeito, quando os Principes antigamente haviaõ de fazer alguma falla, pediaõ ajuda a Deos, tambem o Emperador Trajano, sendo Gentio era muy justo, e devoto.

Se alguem me perguntasse a que fim ajuntey tantos exemplos de Gentios, poderia responder, que pois os Principes idolatras cegos, e envoltos na ignorancia de seu engano com tanto trabalho conservavaõ, e procuravaõ as cousas de sua seita (o que a elles era causa de muitas virtudes, e de seu louvor, e acrescentamento) que devem fazer os Principes Christãos, a que o conhecimento, e veneraçaõ do verdadeiro Deos pode ser causa de tantos mòres bens? Quanto mayor galardaõ merece o bem, que o mal? E a verdade, que a falsidade? Vemos por experiencia, quam bons Principes foraõ, e quanta ventagem fizeraõ aos Gentios os Reys Christãos, que nesta parte mereceraõ louvor.

Tragamos à memoria o Emperador Carlos Magno, e acharemos, que naõ houve Principe, que se compare com elle, muitas virtudes houve nelle, que quem perfeitamente tiver huma, he necessario, que tenha todas as outras, com tudo o amor de Deos, e da Religiaõ lhe deu muito mayor gloria, assi neste mundo como no outro: esta o fez (sendo-lhe pedida ajuda polo Papa Adriano) passar em Italia contra Desiderio derradeiro Rey dos Longobardos com grande exercito, ao qual vencendo em batalha campal foy por elle restituido o Papa à sua dignidade, esta o fez mover guerra a toda Saxonia; a huma graõ parte d’Alemanha por naõ se querer tornar a Fè de Christo lha fez taõ aspera por espaço de trinta annos, atè que por força a sojugou, e fez converter à verdadeira Fè: esta o moveo a tomar a empreza contra os Mouros, que tinhaõ occupado a Hespanha, quando foraõ por elles eleitos os doze do seu conselho, que agora chamamos Pares, ou Padres, seis Leigos, e seis Ecclesiasticos, todos Duques, ou Bispos, ou Condes: esta mesma o fez hir poderosamente contra os Hunnos, gente barbara, de que jà falley, que tinha feito grande danno em toda a Christandade, e com a ajuda de Deos os venceo, e desbaratou, polo qual Leaõ Papa lhe deu novamente a Coroa, e Insignias do Imperio Romaõ: finalmente esta foy causa, que ordenasse a Universidade dos estudos de Pariz, onde continuamente se defendesse a Fè, e ensinasse a Santa Theologia, naõ me occorre Principe dos Gentios, que tanto fizesse por seus idolos, quanto este fez em louvor, e acrescentamento da Fè Christãa, e sem duvida razaõ era, que sendo nossa Fè taõ Santa, e taõ verdadeira, que a virtude della desse mayor animo, e esforço a hum taõ Catholico Principe, e o ajudasse mais em taõ santas empresas.

Oh quam bem està a hum Principe ser devoto! Quam bem està a quem teve a Coroa na terra sobre os homens, ter depois outra muito mais preciosa na Gloria do Ceo! Quam bem està a hum Reyno, poder allegar, que teve hum Rey Santo, e aceito a Deos! Preza-se França d’ElRey S. Luiz, e de Clodoveo filho delRey Childirico, que foy o primeiro Rey Christaõ, que houve nella, do qual se conta, que no tempo que Remigio Bispo Remense o baptizava, appareceo huma pomba no Ceo com huma redoma d’oleo no bico, com que ElRey Clodoveo foy ungido neste Santo Sacramento, donde ficou em costume, que os Reys de França em sua Coroaçaõ fossem ungido com este oleo. Preza-se Ungria delRey S. Ladislao: preza-se Castella da Santidade delRey D. Fernando, que ganhou Sevilha aos Mouros, preza-se Portugal da grande fé d’elRey D. Affonso Henriques (segundo alguns tem de Lorena) que se achou na Santa Conquista d’Ultramar, por isso assi como he grande honra, e proveito do Reyno ser o Principe servidor, e amigo de Deos, e seguir em tudo sua Santa vontade, assi o Rey, que he mào Christaõ, he cauza de grandes males, e dannos a seus vassallos, e naõ sey eu que escuza o tal possa dar a Deos, tendo delle recebido tamanhas merces, como saõ mando, e poder, authoridade, e sobre tudo lume, e conhecimento de sua verdadeira fè: mas esta virtude taõ estremada, e taõ aceita a Deos, taõ particular he a V. Alteza nas obras, quam geral a muitos nas palavras, e o proveito disto nòs o sentimos, e sempre (como espero) sentiremos, nem he de crer que Deos naõ leve sempre avante as cousas deste Reyno, sendo taõ santa, e justamente governado por V. Alteza. Acha-se na Sagrada Escritura que Asà Rey dos dous Tribus filho delRey Abias, tornando-se para Jerusalem com seu Exercito muy alegre, pola vitoria que ouvera contra Zarà Rey da Ethiopia, o Profeta Azarias o veyo esperar ao caminho, e o fez estar quedo, e lhe disse que lhe fazia saber, que elle, e seu Exercito venceraõ, porque viviaõ segundo Deos mandava, o que se levassem àvante, haveriaõ sempre vitoria contra seus inimigos, mas se d’outra maneira vivessem, que lhes aconteceria o contrario, e que tempo viria, que no povo dos Judeos, se naõ achasse nenhum Profeta, nem Sacerdote, que fallasse verdade, e que os Judeos seriaõ lançados por todo o Mundo, e que viviriaõ pobremente, e com muito trabalho, por tanto os amoestava, que naõ se apartassem da vontade, e devaçaõ de Deos.

Quam verdadeiramente o Profeta Azarias isto fallasse, se vio em todo o tempo, e se vè cada dia por experiencia. Claro està, que em quanto ElRey Saul foy obediente a Deos, venceo todas as batalhas, e suas cousas foraõ àvante, ajuntou hum Exercito de sete centos, e setenta mil homens com que desbaratou a Annaàs Rey dos Ammonitas, que vinha contra elle poderosamente venceo com seis centos homens trezentos mil Philisteos alevantando-se entre elles hum grande medo sem causa evidente, que os poz em desbarato; mas depois que Saul contra o mandado de Deos perdoou aos Amalechitas, gente da Arabia, naõ sómente suas cousas foraõ mais adiante, mas perdeo a dignidade Real, e foy dado o Reyno a outrem, que naõ era da sua linhagem. Escreve-se de Joathaõ Rey de Jerusalem, que por ser devoto, e amigo da ley, e por edificar huns Alpendres no Templo de Salamaõ mereceo vencer os Ammonitas: mas escuzado he determe em cousa taõ clara chea està a Sagrada Escritura das grandes merces que Deos fez aos que verdadeiramente o amaraõ, e naõ sómente aos Judeos, mas a todos aquelles, que os defenderaõ, e foraõ em sua ajuda. A principal causa segundo a opiniaõ de muitos, porque Alexandre Magno venceo a ElRey Dario, foy porque passando junto de Jerusalem, e saindo a recebello os Sacerdotes, e Levitas revestidos com grande pompa, e solemnidade, o mesmo Alexandre Magno se deceo a elles, e lhes fez muita honra, e acatamento, e sendo naquelle tempo Jerusalem muy rica, e populosa de duas legoas de cerca, segundo escreve Hecateo, que foy no mesmo tempo, em que havia cento, e tantos mil homens, com tudo naõ quiz entrar nella, nem consintio que polos seus lhe fosse feito algum danno.

Tambem o Emperador Julio Cesar, por favorecer o povo dos Judeos se cre que mereceo ser vencedor nas guerras civis que teve com Pompeo, e polo contrario Pompeo se perdeo, porque na guerra, que teve em Asia, sendo Capitaõ dos Romaõs, entrou em Jerusalem por força no dia sabado, e andou vendo o Templo armado com sua gente, sem fazer nenhum acatamento, nem reverencia a Deos, e sabido està, que dali pordiante suas cousas foraõ de mal em peor. O mesmo aconteceo a Marco Crasso, Capitaõ Romaõ, pessoa de graõ riqueza, e authoridade, este passando por Jerusalem com seu Exercito, e sabendo que estavaõ guardados no Templo de Salamaõ oito mil talentos, que eraõ cinco contos de ouro pouco mais, ou menos, e sendo de seu natural muy cobiçozo, os tomou por força sem nenhum respeito, polo qual peccado foy logo vencido polos Parthos em batalha campal em que morreraõ quarenta mil Romaõs.