Naõ me quero deter em huma cousa taõ clara, como he a prova de hum taõ grande vicio, o qual sem duvida he tamanho, quam grande virtude sempre foy, e hade ser hum Rey, e Senhor natural de todos poderse com razaõ chamar Pay de todos. Naõ hade viver o Principe para si só, nem para sua deleitaçaõ, mas para com muito trabalho, e continua vigia ganhar o amor de todos seus vassallos, como fez o muy esforçado, e prudente Rey David, de quem se escreve, que tendo vencido seu filho Absalaõ, que se lhe erguera com todo o Reyno, e tornando-se com vitoria para Jerusalem, encontrou o Tribu de Judà ao Rio Jordaõ, que se adiantàra ao hir receber, e queixando-se disto os outros Tribus, que ficaraõ mais atraz no lugar que chamaõ Galgalà, o Tribu de Judà se escusava polo parentesco que tinha com David, a isto responderaõ os principaes dos outros Tribus estas palavras: Espantados somos de vòs irmãos, cuidares, que ElRey só he vosso parente, por quanto quem sobre nòs todos recebeo o mando de Deos, este com nosco todos tem igual parentesco, e sendo nòs as onze partes do povo, e vòs a huma, e assi sendo mais antigos, que vós, naõ fizestes bem em nos querer tomar a dianteira escondida, e maliciosamente; sem duvida, razaõ tinhaõ nestas palavras os onze Tribus, que tanto que huma pessoa he Principe, logo cessaõ os respeitos particulares, e obedecem ao proveito commum, e he para notar o grande amor, que os Judeos tinhaõ a ElRey David, que elle merecia por suas grandes bondades, e affeiçaõ que tinha a seu povo.

Naõ cuide alguem, que as merces, e liberalidades dos Principes tem mais força para os fazer bem quistos, que a santidade da vida; porque naõ ha cousa (se me naõ engano) mais poderosa, nem de mór efficacia, para ganhar a vontade dos vassallos, que os bons costumes. Felipe Rey de Macedonia, sabendo que seu filho Alexandre por ganhar a vontade d’alguns Fidalgos lhes fazia merce de dinheiro, dizem que ouve graõ merencoria, e lhe escreveo huma breve carta por estas palavras: Qual razaõ, filho, te demoveo a cuidares, que te haviaõ de ser fieis amigos os que por dinheiro forçasses athe quererem bem? Enganas-te, o verdadeiro amor naõ se compra per dinheiro. E tinhaõ por costume os Reys de Macedonia, de chamarem às pessoas notaveis, e de seu conselho, seus amigos, o que V. Alteza tambem uza, nem se pòde dar mais honrado premio à virtude, que o titulo d’amizade, e para que todos vejaõ; quam perfeitamente, e com quanta constancia ama a seu povo, ainda que a todos seja notorio, direy duas principaes cousas, que em seu reynado tem feitas, de que se possa comprehender facilmente com quanto amor, e com quanto zelo trabalhou sempre pola conservaçaõ, e descanço geral de seus vassallos.

Huma dellas he cazar-se com a muy poderosa Rainha Dona Catharina Nossa Senhora, e a outra no tempo das grandes fomes, e esterilidades destes Reynos, trabalhar tanto, que seus subditos vivessem abastados. Ardia este Reyno em grandes suspeitas, e receos de males, que se esperavaõ, a guerra parecia certa, os tempos naõ permetiaõ descanço, a vontade dos homens naõ achava repouso algum. Naõ pòde V. Alteza naõ sòmente sofrer os males de seus vassallos, mas nem a suspeita delles, por onde logo no principio de seu reynado, sendo muito mayor seu muito saber, e prudencia do que se podia esperar dos annos, e idade, se cazou com a Rainha nossa Senhora, Irmaã do Emperador Carlos V. deste nome, e para mais liança, e remate de taõ santa amizade, mayormente antre Reynos vezinhos, e comarcaõs, dahi a hum anno lhe deu por molher a Infanta Dona Izabel sua Irmã, dando-lhe com ella taõ grande, e magnifico dote, digno de seu Real coraçaõ, que com razaõ se pòde comparar com as promessas delRey Dario, e liberalidades de Alexandre Magno. Assim que lançado o fundamento da paz, o povo dantes suspenso, e solicito descançou, e vendo mostra de tanto amor o começou com mais razão d’amar, e tanto cada dia mais o ama, quanto as obras de V. Alteza merecem cada dia mais de serem amadas. Mereceo, que lhe desse Deos a Rainha Dona Catharina nossa Senhora por mulher dotada de toda a perfeição, e santidade de vida, cujas virtudes saõ tantas, e taõ grandes, que melhor se pòdem cuidar, e ver no pensamento, que louvar segundo seu alto merecimento polo qual nem eu me acho assaz eloquente para as poder dizer, e ainda q́ fosse, se deve isto guardar para outro tempo, em que mais conveniente, e copiosamente em seu proprio lugar se possa fazer.

Mas como poderey eu dizer a estremada diligencia, que V. Alteza uzou nos tempos das grandes esterilidades de seus Reynos, mandando vir trigo de diversas partes do Mundo, aventurando grande soma de dinheiro, e suas armadas a tantos perigos, vencendo as dezordens dos tempos, e contraria constellaçaõ do Ceo, porque seu povo não sentisse fome, e vivesse contente, e abastado, com taõ verdadeira piedade, e amor, como se elle somente fora o que sentira? Grande mal he a mingoa das cousas, que muito importaõ à vida, de que nascem mil queixumes, e descontentamento, e por isso tanto mòr louvor merece o Principe, que atalha as necessidades de seu povo. ElRey Herodes filho de Antipatro, por soccorrer a huma tal esterelidade ao Reyno de Judéa, mandou vir muito trigo do Egypto com que abastou aos naturaes, e estrangeiros. Foy amado, e julgado porRey excellente, posto que no tempo atraz, tivesse feito grandes males, e cruezas, e delle se escreve, que em outra esterilidade, quitou a terça parte das rendas, que lhe eraõ devidas; pois com quanta mòr razão merece V. Alteza ser louvado, e quanto mais evidente nos mostra o amor, que nos tem, o qual nas necessidades, e carestias deste Reyno, naõ de terra taõ vizinha, e comarcaã, como era o Egypto de Judèa, mas de Reynos taõ afastados, como saõ Sicilia, e Alemanha mandou trazer à sua propria custa tanta abastança de paõ, e assim a seus rendeiros, naõ sómente em hum anno, mas em todo o tempo tem feitas, e faz cada dia grandes, e muy liberaes quitas? Louva-se o Emperador Trajano, que havendo esterilidade no Egypto por naõ encher o Nilo ordenou que levassem là d’outras partes muita soma de trigo, e assi o Emperador Octaviano, nas fomes de Roma provia com muito cuidado as necessidades do povo, fazendo vir paõ de muitas partes, o qual mandava dar de graça, ou vender por baixo preço. Mas quanto a esta parte sobre todos he louvado o Emperador Severo, que naõ sómente em quanto foy vivo, trabalhou que em Roma naõ houvesse tal necessidade; mas ainda foy causa, que depois de sua morte, pola provisaõ, que leyxou, vivesse sete annos o Povo Romaõ abastado. A fartura, que he dada polo Principe, como verdadeiramente diz Plinio, he huma mercè perpetua, que sempre dura nas vontades, e o Principe liberal naõ menos aproveita a propria fazenda, que a fama: por isso dizia o Emperador Aureliano, que naõ havia cousa no mundo mais para folgar de ver, que o Povo Romaõ, quando era abastado, nem deu menos gloria ao grande Pompeo a empreza de fazer vir paõ a Roma, que os triumfos, e vitorias, que trouxe d’Oriente.

Sem duvida todos estes louvores cabem em V. Alteza, e nisto se pode ver com quanta razaõ merece ser amado de seu Povo, o qual tanto mais verdadeiramente o ama, quanto mais certo vè, e sabe, que as mercès, que lhe faz, vem de sua propria bondade, sem algum seu particular respeito, que entaõ he verdadeiro o amor quando as boas obras nascem delle só, e naõ da esperança d’algum interesse, mas nem com isto satisfaz ainda o seu muy virtuoso zelo, e santa inclinaçaõ. Novas maneiras, novos caminhos busca cada dia com que tenha mais contente seu Povo, e naõ tendo nos mais, que dezejar, todavia o seu dezejo cresce, e nunca cansa, e satisfazendo a todos, sómente a si nunca satisfaz. Era entrado neste Reyno, polo costumes das sedas, hum mais desordenado gasto no vestir do que cumpria ao bom ensino, e honestidade, e trajo antigo desta Naçaõ, o que vendo V. Alteza de tal maneira o atalhou, e remediou, que elle mesmo foy a ordenaçaõ, someteo sua real authoridade a trajo temperado, e commum, digno da gravidade de seus antepassados, porque naõ sómente com as virtudes d’alma, mas com o exemplo de fóra aproveitasse ao povo, e lhe mostrasse tambem nisto o grande amor, que lhe tinha. O quanto mais luzem, e resplandecem nelle os temperados, e honestos vestidos, que em outros muitos Principes brocados, e forros, e golpes demasiados! Sem duvida tanto mòr verdade he o que digo, quanto no Principe he mais louvada a temperança, que a desordem do appetito. Com razão deve ser reprehendido Aureliano Emperador Romaõ, que usou primeiro pòr Diadema na cabeça à maneira dos Principes barbaros, e vestio Opas d’ouro tirado, cubertas de perolas, e pedras preciosas, as quaes insignias leyxaraõ depois os Reys Christãos em sinal de humildade.

Que direy dos Moços, que V. Alteza à sua propria custa mandou, e cada dia manda à Universidade de Pariz aprender as Artes liberaes, e Santa Theologia, porque a honra de seu Reyno naõ menos nas Letras, que nas outras virtudes seja por elle acrescentada? Louvado he o Emperador Trajano, por mandar criar cinco mil meninos Romaõs pobres à sua custa, mas tanto V. Alteza he digno de mòr louvor, que Trajano, quanto a doutrina, e ensino das Letras se deve mais estimar, que toda a outra criaçaõ. Nomeada he nas historias a memoria delRey Ciro, que sabia o nome a todos os seus Soldados, e delRey Mitridates, que sabia vinte e duas linguas de vinte e duas Provincias de que era Senhor: tambem Temistocles Capitaõ Atheniense sabia o nome a todos seus Cidadaõs. V. Alteza naõ sómente se lembra dos nomes, mas do merecimento, e preço das pessoas, nem ganha menos a vontade de seus Vassallos com a viveza da memoria, que com a perfeiçaõ das obras. Aquelle verdadeiramente se pode chamar bom, que se preza de boas obras.

A virtude, segundo diz Aristoteles, consiste no obrar, o qual tem jà. A bemaventurança do homem naõ he outra cousa senaõ usar a nossa alma segundo a razaõ quer em toda a vida. Que mòr testemunho do que digo queremos, que o que este dia, e tempo prezente nos pode dar, em que naõ sómente faz mais rica, e populosa com sua presença a sua Cidade d’Evora, mas ainda muy dezejoso de lhe ser causa de mores bens lhe traz novamente a agoa de muy longe com muita abastança, vencendo com arte à natureza, restituindo o cano de agoa taõ necessario, e tantos tempos hà esquecido, e com grande animo suprindo os defeitos do lugar por dar saude, e contentamento aos homens. Ó quam bem se pode applicar a V. Alteza aquelle consentimento geral, que o Povo Romaõ deu ao Emperador Helvio Pertinaz em estas palavras: Reynando o Emperador Helvio Pertinaz seguros vivemos, ninguem tememos, ao Pay piedoso, ao Pay do Senado, ao Pay de todos os bens. Este he o verdadeiro officio do Principe viver para proveito dos homens, isto he, que Deos, e o mundo, e a obrigaçaõ do Sceptro Real requerem.

Por isto vendo alguns, que grande trabalho era reynar bem, escolheraõ antes viver descançados sem Reynos, que reynando serem obrigados, e sugeitos a tantos cuidados. Le-se do Emperador Diocleciano, que vencido do grande trabalho soltou o Imperio Romaõ, e se recolheo a huma sua quinta perto de Veneza, e sendo-lhe requerido por parte do Senado por Herculeo, e Galerio pessoas principaes, que quizesse tornar a aceitar o Imperio, lhe respondeo estas palavras: se visseis meus amigos as ervas, que eu por minhas mãos tenho postas, e na minha orta, certo saõ, que me naõ darieis tal conselho: e naõ hà muito tempo, que Luiz Landrasi, Principe de hum Estado em Alemanha sendo eleito Emperador o naõ quiz aceitar, e quiz antes viver em seu pequeno Estado, que governar o Imperio de Alemanha: antre as escusas, que dava para o naõ poder ser, era naõ saber letras, as quaes dizia serem muy necessarias para o governo da Reepublica Christãa, este foy taõ amigo das leys, que as fez tirar de latim em sua lingoa por melhor as poder entender.

Convida-me neste lugar o tempo a fallar da liberalidade de V. Alteza, que como dizem os Filosofos he graõ parte da justiça, e propriamente pertence aos Reys, e Grandes Senhores, e sabido està com quanto animo usou sempre desta virtude, mòrmente em tempos taõ contrarios, merecendo todo o louvor, que se pode dar a hum Rey Magnifico, e liberal. Acho eu, que os mais dos Excellentes Principes foraõ liberaes: liberal foy Alexandre Magno, e isto em tanto grào, que nos ficou em proverbio. Liberal foy ElRey Cyro, o qual como escreve Xenofonte, dizia que o seu Thesouro estava nos amigos, e assi Julio Cezar o foy tanto, que partindo-se de França, Provincia taõ rica, aonde estivera dez annos por Governador, e naõ tendo com q́ fazer a guerra Civil a Pompeo, que pouco antes começara, lhe foy forçado pedir dinheiro emprestado aos Capitães, e Soldados de seu Exercito. Por certo mais real cousa he enriquecer o Principe a outrem, que fazer-se elle a si mesmo rico, e por isso bem dizia ElRey D. Pedro de Portugal, que o dia que naõ dava, se naõ tinha por Rey. Devese com tudo ter respeito, que esta virtude seja empregada em quem merece, e se verdade he, que toda a liberalidade he justa, quem deste meyo fugir, darà consigo em hum dos extremos, e ou serà avarento, ou prodigo. Escreve-se de Archelao Rey de Macedonia, que pedindo-lhe hum homem de màos costumes, que lhe fizesse mercè d’hum vaso d’ouro, ElRey mandando-o dar ao Poeta Euripedes, lhe disse: Tù es digno, que peças, e naõ te dem, e estoutro he digno, que naõ pedindo lhe seja dado. Por isso reprehende muito Plutarcho aos Principes, que naõ se lembrando dos Criados vergonhosos, e bem ensinados, fazem sómente mercè aos importunos, que naõ tem vergonha, e lhes daõ naõ o que lhes querem dar, se naõ o que lhes naõ podem negar. Mas V. Alteza em todas as partes guarda muy inteira temperança, despreza o dinheiro, mas sómente o despreza nos lugares, e tempos onde he razaõ, edifica Templos sumptuosamente, mas naõ como o Emperador Domiciano, e alguns outros Principes, que nesta parte excederaõ o modo.

Finalmente de tal maneira he magnifico distribuidor de suas riquezas, que sempre se guarda dos extremos, e assi como naõ se esquece da conservaçaõ, e acrescentamento de sua fazenda, assi a fonte de sua magnificencia està sempre aberta para todos seus amigos, e Vassallos. Naõ pode mais claro sinal ser do que digo, que o cuidado, que teve sempre, e hoje em dia tem dos Infantes seus Irmãos, naõ receando cousa alguma por onde se veja, que naõ menos os tem por filhos, que por irmãos, e certo nas obras, e amor, que lhes mostra, naõ hà diferença para elles de Pay para Irmão. Saõ elles bemaventurados carecendo de taõ excellente Pay naõ carecerem de hum tal Irmaõ, o que posto que cada hum mereça por suas muito grandes virtudes, e lealdade, e amor, que lhe tem; com tudo a mòr parte deste louvor se deve atribuir à liberalidade de V. Alteza. Huma das grandes virtudes mais estimadas de Marco Antonio Emperador dos Romãos, chamado por sobrenome o Filosofo, foy esta de quem se escreve, que sendo o Thesouro de Roma gastado, e naõ havendo com que pagar huma grande soma de dinheiro, que se devia aos Exercitos, elle por naõ lançar nenhum pedido, nem dar oppressaõ às Provincias, mandou vender, e pòr em pregaõ toda a sua bayxella, vasos d’ouro, joyas, e tapeçaria, com que satisfez, e pagou a todos inteiramente.