Quem leyxarà de louvar a verdadeira clemencia, e humanidade de V. Alteza, que naõ menos usa com os grandes, que com os pequenos em tudo sempre conservando, o que cumpre a sua real authoridade? Proprias virtudes saõ estas de bom Principe Christaõ, que sempre deve trabalhar de naõ ser aspero, nem so berbo ao povo, nem lhe dar mais opressaõ daquella, que cumpre para o bem, e conservaçaõ da justiça, e polos males, que do contrario disto em algumas partes nascem, se pode ver bem, quanta verdade digo. Huma das mòres virtudes, que houve em Julio Cesar foy a Clemencia, e a mayor, que houve em Tito filho de Vespasiano, foy a mansidaõ de que nasce toda a liberalidade, e comedimento. Sóhia dizer este Emperador Tito a seus amigos, quando passava algum dia, sem fazer mercé, que perdera aquelle dia. Octaviano foy taõ clemente, e piedozo, que mandou queimar todas as obrigaçoens, e conhecimentos de dividas velhas, que se deviaõ à Reepublica, donde claramente se pòde ver, que assi como das palavras asperas, e soberba condiçaõ nasce crueza, assi da clemencia, e mansidaõ vem todo o bom respeito, e liberdade.
Differentes cousas saõ antre si, como diz Plinio, Senhor, e Principe, nem ha Principe que mais contente ao povo, que o que menos se lembra que he Senhor. Antigamente este nome de Senhor era odioso, e offendia muito, e polo contrario o nome de Principe era aceito. Por onde Alexandre Emperador Romaõ defendeo que o naõ chamassem Senhor, e como diz Seneca, os antigos querendo abrandar dos nomes asperos, que eraõ escravo, e Senhor, chamavaõ Pay de Familia ao Senhor, e ao escravo chamavaõ familiar. Escreve-se de Octaviano, que mandava ter as portas abertas, a quem o quizesse vizitar, e recebia com tanta humanidade, e taõ boa acolhença os homens, que chegando hum dia a elle hum Romaõ pouco desenvolto, e dando-lhe huma petição com muito pejo, o Emperador lhe disse rindo-se que parecia homem, que dava ceitil a Elefante. Antre os principaes louvores de Trajano era hum que todos podiaõ entrar onde esse estava, e louva Pacato em hum seu Panegyrico ao Emperador Theodosio de muy brando, e humano para todos. Com a mesma humanidade sohia Cesar Augusto hir vizitar, e consolar a muitos em pessoa, sabendo bem a consolaçaõ do Principe ser de muita força, e virtude para abrandar os coraçoens dos homens.
Que direy da bondade de V. Alteza, que naõ sómente em seu reynado, mas em todo o tempo de sua vida nos mostrou, naõ fallo agora d’quella bondade, que he nome geral, e vem a ser huma mesma com a virtude, mas da outra particular bondade, q́ tambem se chama santa inclinaçaõ, ou zelo virtuoso, e desta V.A. tem tãta parte, que a execuçaõ della tem convertido em sua propria natureza? Xenocrates excellente Filosofo da Seita dos Stoicos, que segundo diz Tulio melhor fallaraõ das virtudes, que todos os outros, sendo perguntado que podiaõ delle seus Discipulos aprender? Respondeo: fazerem por sua vontade o que os outros fizessem com medo das leys, e Xenocrates cuidava, que naõ podia alcançar perfeita virtude sem muita doutrina. Quanto mais de louvar he, quem de seu natural, e sem nenhum mestre, nem preceitos de Filosofia póde alcançar per si o que poucos sabedores, ajudados de tantos mestres em muito tempo, e com grande trabalho se poderaõ alcançar?
Esta tamanha ventagem nasce (se me eu naõ engano) da bondade que digo, e venturosa inclinaçaõ das pessoas, a qual se em todo o homem he louvada, quanto mais no Principe o deve ser? Com muita cauza he nomeada a bondade do Emperador Trajano, que foy tanta, que ficou em proverbio, taõ bom como Trajano, e acho eu, que sendo elle hum dia publicamente louvado no Senado, e sofrendo mal por sua temperança tal maneira de louvor, hum Senador lhe disse em voz alta: Emperador Trajano lembrate do que fazes, e veràs o que dizem de ti; escreve-se delle, que naõ quiz nunca ser Censor, sendo este hum dos principaes Officios de Roma, e de mais authoridade, que os maes de seus ancessores o quizeraõ ser, e com elle se castigavaõ os màos costumes dos nobres, e da outra gente. Mas Trajano, vendo que o exemplo de sua vida aproveitava mais ao povo, que nenhum Càrrego de Censor, ouve por escusado querello aceitar, e porisso se disse, que a vida honesta do Principe he censura; a esta olhaõ os vassallos, a esta seguem, nem tem tanta necessidade de Officiaes que os castiguem, quanta do bom exemplo de quem os manda. Mestre aspero, e pouco fiel da gente he o arreceyo das leys, melhor aprendem os vassallos dos bons costumes, e virtuosa atençaõ de seu Principe, o qual antre outros bens tem este, que confirma com seu exemplo poder-se fazer o que mandaõ as leys que se faça: e naõ a outro fim os antigos Romaõs sohiaõ a pòr nas sallas, e cazas dianteiras as imagens, e estatuas de seus Avòs, que em alguma virtude, ou parte da vida foraõ dignos de memoria, porque com isto sendo elles mais lembrados, trabalhassem por seguir, e reprezentar o que os taes fizeraõ. O Rey vicioso todas as boas partes lança do Reyno naõ menos com lhes querer mal, que com poder muito, e com seus vassallos naõ ousarem a hir-lhe à maõ.
V. Alteza todas as virtudes tem abarcadas consigo nos seus olhos, nas suas orelhas, no seu coraçaõ as traz sempre, uzando do que ellas mandaõ, e tanto as ama, tanto quanto se prezaõ delle. Jà vemos por experiencia a principal defençaõ do Reyno pender da bondade, e santa inclinaçaõ do Principe. Jà vemos por de mais ser cercado de armas, o Rey que naõ he cercado de amor de seus vassallos; mas porque as merces quando saõ feitas aos bons acrescentaõ a virtude, e polo contrario se saõ feitas aos màos a maldade cresce, e a virtude perde sua força, elle nesta parte uza daquelle estremado juizo, e discriçaõ, que delle se espera, naõ se apartando nunca da temperança, e afastando-se dos extremos. DelRey D. Sancho de Portugal, chamado Capelo, se escreve, que por ser muito bom, e piedozo, foy mào a este Reyno, e se perdia em seu tempo a justiça, nem cuido eu que Alaxandre Magno fosse movido de verdadeira bondade, quando fez a hum Ortelaõ Rey de Sidonia. Por certo melhor exemplo poderiamos tomar da vida de Antonino Emperador de Roma, que foy chamado piedozo, o qual com a fama da sua virtuosa inclinaçaõ, e perfeita vida governou tamanho Imperio pacificamente vinte, e tres annos, por isto todos os Reys, Povos, e Naçoens o temiaõ, e amavaõ mais como o Pay, e defensor, que como a Senhor, e Emperador: a elle sendo vivo se encomendavaõ como a Deos, a elle tomavaõ por Juiz em todas as suas diferenças: os Reys da India, os Reys da Persia, e de todo o Oriente, ouvindo sua fama o mandavaõ vizitar por seus Embayxadores com ricos prezentes, naõ por medo, ou necessidade, que delle tivessem, sómente polo gosto, que levavaõ de ter amizade com taõ virtuoso Principe. Naõ errarão os que em Castella, e Portugal fizeraõ historias de Cavalleiros d’aventura em os fazerem zelozos, e inclinados à virtude, tirando as semrazoens da terra, defendendo, e amparando as Viuvas, e Donzellas, o que tambem segundo muitos escrevem, fizeraõ Theseo, e Hercules, e outros muitos, que floresceraõ nos tempos, a que os Gregos chamaraõ heroicos. Mas antes que deste lugar me parta, naõ leyxarey de trazer à memoria o Cid Ruy Dias, cuja bondade, e cavallaria foy tanta, que mereceo, que o graõ Soldaõ do Egypto o mandasse vizitar com ricos presentes, e que suas filhas, que os Infantes de Carriaõ primeiro engeitaraõ, viessem depois a ser cazadas com os Reys de Aragaõ, e de Navarra.
Se tão louvado foy hum bom Cavalleiro, quanto mais o deve ser hum bom Principe, e se hum mào Principe sem embargo de ser tal, toda via pola dignidade real he muy acatado, que veneração, que honra, que gloria merecem todalas partes da justiça, cuja parte he esta virtude de que trato? Escreve-se dos Romaõs, que sendo grandes contrarios, e inimigos do nome real, com tudo acatavaõ muito aos Reys, e se algum Rey era prezo em guerra, ou batalha, lhe naõ davaõ morte, mas depois de triumfarem delle o tinhaõ prezo, avendo por grande mal pòr a maõ em pessoa de tanta authoridade; por isso trabalhe todo o bom Principe, pois o seu officio he de tamanho pezo, de tanto mais ser limpo, e apartado de todo o vicio, quanto as virtudes, e culpas se vem nelle mais claro: peor està huma nodoa em huma Oppa de brocado, que em hum vestido mais baixo, e peor a hum grande Senhor, que a hum homem do povo.
Tem alguns que as Reespublicas, e Cidades se devem fundar em lugares esteriles, porque todos trabalhem, e fujaõ a ociosidade; outros tem que he melhor edificarem-se nos lugares fertiles, e abastados, e dizem que nestes pòde haver leys com que se atalhe o muito folgar, exercitando-se a gente nas cousas que cumpre a guerra, como fizeraõ os Mamelucos no tempo que havia graõ Soldaõ, os quaes povoando terra taõ viciosa, e farta, com tudo naõ leixaraõ nunca ser avidos por valentes homens, e com isto puderaõ sustentar o estado do Egypto por espaço de quatrocentos annos.
Mas leixando esta questaõ para outro tempo como agora naõ muito necessaria, eu para mim tenho que nenhuma cousa pòde fazer bemaventurada huma Reepublica, senaõ o bom Principe, o qual entaõ pòde, e merece ser chamado bom, quando for justo, e porque como diz Aristoteles, a vida do que bem obra ella por si lhe dà inteiro contentamento, nem he bom o que naõ leva gosto de bem obrar, sem duvida leixando à parte a gloria deste Mundo, tanto mais contente deve viver o bom Principe obrando bem, quanto mais, e mòres cousas obra que os outros. Isto, e isto dezejaõ as leys, que os vassallos, e Cidadoens antre si sejaõ conservados, e vivaõ sem nenhum perigo, huns como os outros, e os que o contrario fizerem, que sejaõ punidos com morte, e desterro, prizaõ, e perda de sua fazenda, isto muito mais requere a mesma razaõ da natureza, que he huma ley Divina, e humana, e quem lhe obedecer (o que todos devem fazer) nunca dezejarà o alheyo, nem quererà ver a outrem, o que naõ queria ver a si mesmo. Em fim isto dezeja aquella justiça Senhora, e Rainha de todas as virtudes, que o proveito seja universal, o qual naõ se pode chamar proveito, quando naõ for justo; por isso se os Filosofos antigos vendo, que naturalmente os homens nasceraõ para obrar bem tinhaõ esta opiniaõ quanto mais a devemos nòs ter, que fomos alumiados da verdadeira Fè de Christo? O Principe, que estas partes tiver, eu naõ sey como naõ vivirà muy contente. Muy contente vivia o Emperador Antonino, quando disse, que queria antes dar vida a hum Cidadaõ seu, que matar a mil de seus contrarios. E contente era Licurgo quando ordenou as Leys da Republica Spartana, o qual sem duvida mereceo mòr louvor em as ordenar, do que Lizandro, e Pausanias Nobres Capitaens da mesma Cidade mereceraõ em pellejar valentemente.
Havia entre os Gregos hum proverbio, que a saude era a melhor cousa, e a justiça a mais fermosa, e alcançar o homem a cousa mais desejada he de mòr contentamento, mas Aristoteles todas estas tres cousas dà à bemaventurança do homem, que segundo elle affirma he obrar virtude em todo o tempo da vida. Que mais fermosa cousa pode ser, que a justiça, e partes della, as quaes todas luzem em V. Alteza como em hum claro espelho, se naõ cuidamos, que ha hi outra fermosura senaõ a que parece aos olhos bem, mas (se naõ me engano) mais fermosa he a virtude, que com os olhos d’alma se contempla, polo qual bem disse Marco Tulio, que se a virtude d’alma pudesse ser vista com os olhos de fóra, que naõ haveria ninguem, que por ella se naõ perdesse, e se esta geral fermosura das pessoas naõ tem mais credito, naõ he por defeito da virtude, mas por falta do nosso entendimento, o qual andando cego, e envolto na prizaõ deste corpo as mais vezes se engana, e assi os olhos de fóra podem mais, e tem mòr jurisdiçaõ, que os d’alma. Chamava Socrates à fermosura das mulheres tirannia de pouco tempo, e Theofrasto engano dissimulado, e Plataõ privilegio da natureza, e Theocrito engano de marfim, e Carneades Reyno solitario, todas estas diffiniçoens quadraõ à fermosura do corpo, e porèm a da virtude dura para sempre, e naõ hà nella engano, nem tirannia, nem dissimulação, mas quanto mais velha se faz, tanto melhor parece, e tanto mais verdadeira, e amiga se mostra do homem. Que melhor cousa pode no mundo haver, que justiça, que fé, que liberalidade, que serem os màos castigados, e os bons haverem galardaõ. E assi como o homem usando da virtude he nesta vida bemaventurado, assi para ser mal aventurado abasta, que queira mal, e que seja contrario à justiça.
Eu bem vejo, que naõ he piqueno trabalho vencer os apetitos; pola mòr parte se soem de vencer, quam mal as grandes dores se podem dissimular. Com tudo lembre-se o bom Principe, que nunca muito custou pouco, e que a virtude de sua natureza he trabalhosa, da qual como dizia Aristoteles, a raiz he amargosa, e o fruito he doce. O mesmo zombava dos Athenienses, porque gabando-se, que foraõ os primeiros inventores do Paõ, e das Leys, dizia Aristoteles, que do Paõ se sabiaõ aproveitar, e das Leys se leyxavaõ esquecer, e por isso mal pode hum Principe fazer justiça, se elle mesmo naõ for justo. E he tanta a força da virtude, que atè Epicuro, que poz a bemaventurança na deleitaçaõ, leyxou dito, que naõ podia ninguem viver contente naõ sendo justo. Mal me poderà a mim ensinar quem naõ olha o que faz, e mal me poderà mostrar o caminho, quem vay errado como eu. Naõ deve o Rey peccar com intençaõ de que depois se emmendarà, que quanto mais tarda o remedio, tanto os vicios criaõ mòr raiz, e saõ peores, e guarde-se naõ lhe aconteça, como soe dacontecer a quem por algum dezastre cahe d’algum lugar d’alto, porque vendo-se cahir, e querendo-se valer d’alguma cousa, ou pegar, que o tenha, jà naõ pode resistir ao grande impeto da queda, que o leva. Antre as virtudes, que saõ necessarias para naõ somente o Principe, mas qualquer homem ser justo, sempre o primeiro lugar foy dado à prudencia: esta consiste no conhecimento da verdade, e em naõ cuidar o homem, que sabe o que naõ sabe, e o despender o tempo em cousas, que naõ relevaõ, nem servem de nada. Grande perfeição dà esta virtude ao entendimento, espertando a vontade ao bem obrar, e sem elle nenhuma das outras se poderà soster.