Nas Cortes tem lugar os Alcaides Mòres dos Castellos delRey, a quem daõ omenagem, e os mais a fazem aos Senhores, de quem os recebem. As principaes Fortalezas, que antigamente havia no Reyno, eraõ as do Estremo, que ficavaõ fronteiras de Castella, e Galliza: e o primeiro Rey, que nesta materia merece louvor, he ElRey D. Sancho o I. e depois delle ElRey D. Diniz, que cercaraõ os mais dos lugares do Reyno. Os muros de Lisboa, e Evora se fizeraõ em tempo delRey D. Fernando, e os de Setuval no delRey D. Afonso IV. E sendo muitas destas Fortalezas dannificadas do tempo, ElRey D. Joaõ II. as mandou reformar: ElRey D. Manoel aperfeiçoou esta obra de todo, e mandou tirar em plantas, e montèa a todos os lugares fortes do Estremo, e Costa do mar, que foraõ, Caminha, Villa-Nova de Cerveira, Valença do Minho, Lapella, Monçaõ, Melgaço, Castroleboreiro, Piconha, Portello, Montalegre, Chaves, Monforte de Rio livre, Vinhaes, Bragança, Outeiro, o Vimioso, Miranda do Douro, Penarroxa, Mogadouro, Freixo de espada na cinta, Castello Rodrigo, Almeida, Castel bom, Castello mendo, Villa-Mayor, Sabugal, Penamacor, Monsanto, Penagarcia, Salvaterra, Segura, Idanha a Nova, Castello-Branco, Montalvaõ, Nisa, Marvaõ, Castello de Vide, Alpalhaõ, Portalegre, Alegrete, Assumar, Monforte, Arronches, Ouguella, Campo-mayor, Elvas, Olivença, Jeromenha, Alandroal, Terena, Monçaràs, Mouraõ, Noudar, Moura, Serpa, Mertola, Alcoutim, Castro-marim. Das plantas, e montèas destes lugares se fizeraõ dous livros, que mandou ElRey pòr na Torre do Tombo, onde ainda estaõ, para todo o tempo estar presente no que convinha aos ditos lugares, para o socorro delles; alèm dos quaes hà no Reyno mais de 400. povos cercados, e acastellados, posto que ao antigo.

A fortificaçaõ dos lugares maritimos começou neste Reyno mais tarde; porque como naquelle tempo havia poucas mercancias, e comercios com os Estrangeiros, naõ tinhaõ os Cossarios em que fizessem suas prezas; com tudo ElRey D. Joaõ I. começou a fortificar os pórtos de Lisboa, e Setuval, fazendo no Tejo ao pè da Villa de Almada a Torre Velha; porque naõ tivessem abrigo os inimigos daquella banda, assim como o naõ tinhaõ da de Lisboa. A mesma diligencia fez em Setuval, edificando a Torre de Outaõ sobre o Canal do porto, de modo, que senaõ pòde entrar, senaõ por baixo da sua artelheria: em ambas estas Fortalezas poz pèças, Capitaens, e soldados para as guardarem. Porèm começando o descobrimento de Guinè, e vendo ElRey D. Joaõ II.[65] os Reys vizinhos poderosos no mar, como Principe prudente começou de tratar de segurar mais a entrada da Barra de Lisboa, e por isto fez a Torre de Cascaes: e depois para melhor defensaõ do Rio, melhorou a Torre Velha de Caparica; e tinha determinado fazer da outra parte a Torre de Belèm no lugar, em que agora està; a qual naõ pode acabar por sua intempestiva morte; mas ElRey D. Manoel, que lhe succedeo, poz por obra este seu intento na boa fórma, em que agora a vemos.[66]

A fortaleza de S. Giaõ começou ElRey D. Joaõ III. na boca do Tejo, para mayor segurança do porto; e depois se acabou com grande perfeiçaõ, de maneira, que he tida por huma das melhores forças de Europa.[67] O mesmo Rey fortificou Lagos, Sines, e Peniche; e depois se fez em Lisboa o Forte da Cabeça Seca, que se começou em tempo dos Governadores, e no delRey D. Filippe o Prudente, o de Santo Antonio para segurança da Bahia de Cascaes; e em Setuval a Fortaleza de S. Filippe, e reformou a Torre de Outaõ; e em Aveiro, Villa do Conde; no Porto, e Viana, Lagos, e Villa-Nova de mil Fontes, fez novas fortificaçoens. De modo, que toda a Costa està hoje bem fortalecida; mas muito mais depois da Restauraçaõ delRey D. Joaõ IV. que Deos guarde, o qual tem fortificado todas as praças da Fronteira de Castella, e as da entrada da Barra de Lisboa sua Costa, com taõ insignes fortificaçoens, que se pòde dizer està hoje Portugal com as mais fortes Praças de toda Espanha. E ElRey D. Pedro II. para a guerra de 1704. em que se temia alguma invasaõ maritima, mandou guarnecer de grande numero de Fortes toda a Marinha de Lisboa desde a Torre do Bugio atè Casilhas, e da Fortalesa de S. Giaõ atè o Grillo.

Para mayor segurança dos pòrtos do mar, ordenou ElRey D. Sebastiaõ no Regimento moderno da Milicia do Reyno, que nos lugares mais commodos, e onde melhor se descobrisse o mar, houvesse perpetuas vigias, as quaes elegem com os Officiaes da Camara os Capitaens Mòres de cada lugar, em numero bastante para vigiarem dous de dia, e tres de noite; começando huma pela manhãa, e entrando outro ao meyo dia; e que vendo vèlas ao mar, fizessem sinal com fumos, se estivessem longe, e com fachos, se estivessem perto, dando tantos fumos aos fachos, quantos fossem os Navios: e os tres que vigiassem de noite, se repartissem aos quartos; e que vendo Navios ao mar, que dèsse aviso delles ao Capitaõ Mòr; e sahindo gente em terra, dessem sinal com arcabuzes, para que se acudisse com presteza ao rebate. E para que estas vigias de dia, e de noite fossem diligentes, ordenou o Capitaõ Mòr, que elegessem sobre roldas, que os visitassem, para que comprissem com sua obrigaçaõ; o que ainda se guarda em muitas partes, prìncipalmente no Reyno do Algarve.

§. XIII.

Da Milicia maritima, e de officio de Almirante.

Naõ foraõ menores as forças maritimas deste Reyno, que as da terra, antes por ser a Provincia quasi toda costa do mar, e o principal de Hespanha, excedeo nesta parte aos mais dos Reynos della. Começou se a exercitar a Milicia Portuguesa no mar, depois, que ElRey D. Afonso Henriques tomou Lisboa, assim pela grandeza, e capacidade do Porto, como pela abundancia, que nelle hà de madeira, e mais materiaes, que para armar Navios saõ necessarios. A primeira Armada, que neste tempo de Lisboa sahio, foy de Galès, com as quaes D. Fuas Roupinho desbaratou nove Galès de Mouros no Cabo de Espichel, e depois desta vitoria teve outras na Costa do Algarve, e no Estreito de Gibaltar. Este poder se foy sempre accrescentando atè o tempo delRey D. Dinis, havendo neste entre meyo alguns Almirantes, segundo parece das historias do Reyno. Porèm o primeiro, que teve este titulo de juro, e herdade, foy Misser Manoel Paçanha Fidalgo Genovez, como logo diremos.

He este nome Almirante Arabigo, segundo sente Scipiaõ Amirato, e o mostra D. Sebastiaõ de Covarruvias[68] o qual diz, que Almirale, tanto vale como Principe, ou General do mar. As ceremonias, com que se esse officio antigamente dava, segundo ElRey D. Afonso V. no seu Regimento da guerra, era precedendo a vigilia ordinaria na Igreja, que primeiro em todos os actos graves dos Cavalleiros se fazia, por offerecerem a Deos suas acçoens, e com este pio principio terem felice successo. Ao outro dia vestindo-se de festa hia da Igreja ao Paço o mesmo Almirante bem acompanhado, e ElRey recebendo o em Sala publica, lhe metia hum anel no dedo da maõ direita, e lhe dava huma espada curta, e lhe entregava na esquerda hum Estendarte com as armas Reaes. E o novo Almirante fazia preito, e homenagem a ElRey de o servir bem, e lealmente; com que ficava General de todas as Frotas, e Armadas do Reyno, e tinha jurisdicçaõ sobre todos os que nellas hiaõ embarcados, para fazer justiça em todos os casos, que succedessem, e seus mandados se cumpriaõ em qualquer lugar, onde chegava com a Armada no que para ella pertencia: e para isso tinha seus Ouvidores, Alcaides, e Meirinhos, Carcereiros, e mais Officiaes de Justiça, e dos Alcaides se appellava para o Almirante, e do Almirante para ElRey: e esta jurisdicçaõ começava do dia, que sahia do Porto com a Armada, até que se desembarcava. Os direitos, que tinha o Almirante, eraõ a quinta parte do que cabia a ElRey de todas as presas, que tomava aos inimigos, tirando Navios, armas, e prisioneiro de mercè; o qual quando ElRey o queria tomar, era obrigado a dar cem livras Portuguesas, e dellas tinha o Almirante a quinta parte.

Alem disto se contratou Misser Manoel Paçanha com estas condiçoens particulares. Primeiramente, que ElRey lhe daria huma Villa, e de presente lhe deo logo o lugar da Pereira com todos os direitos Reaes, que nelle tinha, e tres mil livras em cada hum anno, atè lhe dar a dita Villa, que fosse deste rendimento. Que o officio de Almirante andaria sempre nelle, e em seus legitimos descendentes; e que faltando elles, entaõ poderia ElRey eleger para o officio quem lhe parecesse; e que indo ElRey em Exercito por terra, seriaõ obrigados os Almirantes a acompanhallo, mandando-lho ElRey, e de outro modo naõ. E naõ seria obrigado a se embarcar em pessoa com menos de tres Galès, e o Almirante se obrigou a ter 20. homens praticos no mar para Alcaides, e Arraes das Galès, aos quaes em quanto andassem nellas, daria ElRey ao Alcaide doze livras, e meya por mez, e ao Arraes outo, e agoa, e biscouto, e fallecendo algum dos ditos homens, dava ao Almirante outo meses de tempo, para prover o tal lugar. Este contrato se guardou atè o tempo delRey D. Joaõ I.

A Misser Manoel Paçanha primeiro Almirante succedeo seu filho mais velho Carlos Paçanha, e a este por morrer sem geraçaõ, seu irmaõ Bartholomeu Paçanha; o qual tambem naõ deixou filhos, e lhe succedeo o terceiro irmaõ Lançarote Paçanha; e em quanto elle esteve prezo em Castella, teve o titulo de Almirante D. Joaõ Tello irmaõ da Rainha Dona Leonor. A Lançaròte Paçanha succedeo seu filho Manoel Paçanha, a quem por naõ deixar filho macho, succedeo seu Irmaõ segundo Carlos Paçanha; o qual teve duas filhas, Dona Genebra, que casou com o Conde D. Pedro de Meneses primeiro Capitaõ de Ceita, com quem houve o Almirantado: e por naõ ter della filhos succedeo no cargo Ruy de Mello, Senhor de Mello, casado com a segunda filha de Carlos Paçanha; e por naõ ter della filhos, succedeo Nuno Vaz de Castelbranco, por ser filho de Catharina Paçanha, neta do Almirante Lançaróte Paçanha, e a este succedeo seu sobrinho Lopo Vaz de Azevedo filho de sua Irmãa Isabel Vaz Paçanha, e de Gonçalo Gomes de Azevedo Alcaide Mòr de Alenquer, o qual teve a Antonio de Azevedo, que foy Almirante, e este, a D. Lopo de Azevedo, em cuja linha se conservou esta dignidade. Este Officio de Almirante de Portugal agora he dos Castros, Senhores de Roriz, e Rèzende, porque D. Simaõ de Castro casou com Dona Bernarda de Menezes, que veyo a ser herdeira de D. Joaõ de Azevedo Almirante de Portugal.