§. XIV.
Do Capitaõ Mòr, e General das Galès.
ElRey D. Fernando creou de novo o Capitaõ Mòr do mar do Reyno, o qual segundo parece do Regimento da guerra no tit. do Capitaõ Mòr do mar, devia ser ordenado em ausencia do Almirante. Porèm ainda que tivesse este principio, depois se continuou pelos Reys adiante; e parece que em ausencia dos Almirantes devia fazer o officio. Sua jurisdicçaõ era igual à do Almirante, e executava suas sentenças sem appellaçaõ, tirando em caso de morte, no qual era obrigado dalla para ElRey. O primeiro, que teve este cargo, foy Gonçalo Tenreiro em tempo delRey D. Fernando, que depois se intitulou Mestre de Christo. Succedeo-lhe Afonso Furtado de Mendoça, e depois Alvaro Vaz de Almada primeiro Conde de Abranches, e a elle seu filho D. Fernando de Almada. E assim se foy conservando em sua descendencia por outras successoens.
As Galès para defensaõ da Costa saõ mais antigas no Reyno, e foraõ as primeiras embarcaçoens, que para a guerra maritima se usaraõ em Portugal. E na tomada de Ceita, e outras jornadas, que os Reys por mar fizeraõ, levaraõ sempre bom numero dellas:[69] a chusma das quaes se provia atè o tempo delRey D. Joaõ I. dos homens do mar pescadores, e barqueiros, para o que estavaõ todos alistados, e quando sahiaõ as Galès, tomavaõ a vintena desta gente, que era hum de vinte, para os pòr ao remo, e o Anadel Mòr tinha cargo de os mandar assentar nestes livros, que chamavaõ de Armaçaõ, e os constrangia a virem por meyo de seus Officiaes, a quem chamavaõ Vinteneiros. O que sendo de grande oppressaõ para os mareantes, e semelhante gente, fizeraõ com ElRey D. Joaõ, que aceitasse de novo outra dizima do pescado, fóra a que jà pagavaõ, para com o tal dinheiro prover as Galès de remeiros, e que os desobrigasse de taõ pesado encargo, e assim se fez. O primeiro, que em tempo delRey D. Joaõ III.[70] se acha com titulo de General, ou Capitaõ Mòr das Galès, parece que foy D. Pedro da Cunha. ElRey D. Sebastiaõ o continuou por todo o tempo de seu governo, trazendo-as ordinariamente na Costa do Algarve, e alcançou da Sè Apostolica, que se podessem nellas ganhar as Commendas das Ordens Militares do Reyno.
As tomadias, que se fazem no mar pelas Armadas delRey, pertencem em parte ao Fisco Real, como se vè do titulo do Almirante. O costume antigo, que se nisto guardava, segundo parece da Chronica delRey D. Joaõ I. 2. p. c. 128. era que das embarcaçoens, que eraõ entradas por força de armas, havia cada hum dos soldados para si o que tomava, salvo o ouro, prata, aljofar, pedraria, e as peças inteiras de tellas, sedas, ou pannos; porque estas cousas pertenciaõ a ElRey com o casco do Navio, aparelhos, armas do armazem delle, e prisioneiros. Porèm sendo a embarcaçaõ preza de 26. toneis para baixo, eraõ do Patraõ da Galè, que a tomava, e os Alcaides tinhaõ huma amarra; mas os prisioneiros, e dinheiro eraõ delRey. Das prezas que faziaõ, sahindo em terra dos contrarios, os prisioneiros, e todo o saco eraõ de quem o tomava, salvo o prisioneiro de 5U000. dobras para cima, que este podia tomar ElRey, dando por elle 1U000. dobras. E se esta preza se tomasse na terra por homens de armas, ou bèsteiros, haviaõ a terceira parte os Patroens das Galés, e do que tomarão aos galeótes, haviaõ o terço os Alcaides. Porém do que havião, e ganhavão os Marinheiros, e Arraes, não tinha ninguem parte, e era tudo seu. As armas do Capitão da Galé contraria, e sua baixella, e vestidos erão do Capitão da Galé, que a afferrava. Para se fazer esta partilha mandava ElRey se trouxesse toda a tomadia a monte, e della se fizessem tres partes, das quaes escolherião os tomadores a primeira, e a segunda os Capitaens, e a terceira os tomadores. Destas cousas não tinha o Almirante, ou o Capitão Mòr direito algum, senão que da parte delRey levava sómente o quinto, ficando sempre a ElRey os Navios, armas do Armazem, e prisioneiro de mercé.
§. XV.
Das Armadas ordinarias do Reyno, e da grande brevidade, com que em Lisboa se aprestaraõ poderosos socorros para fóra da Barra.
A Armada ordinaria, que antigamente havia neste Reyno para defensaõ da Costa, era de tres galès, e cinco Navios, como se vè na historia delRey D. Afonso IV.[71] ainda que ElRey D. Pedro favoreceo a ElRey de Castella com dez galès por algumas vezes; de modo que este numero, pouco mais, ou menos, era o ordinario. Porque como os inimigos, que por o mar entaõ havia, eraõ de pouca importancia, naõ procuravaõ os Reys trazer contra elles mayores forças. Com tudo andando ElRey D. Fernando de Portugal de guerra com Castella, armou 32. galès, e 30. Nàos[72] Mas quem poz mayor numero de vèlas no mar, foy ElRey D. Joaõ I. o qual sendo ainda Defensor do Reyno, mandou vir da Cidade do Porto huma Armada de 35. vèlas, em que entravaõ 18. Nàos, e 17. galès,[73] e depois na tomada de Ceita foy o numero mayor, pois só do Porto sahiraõ 70. velas, em que entravaõ 17. galès. Na tomada de Alcacere passou ElRey D. Afonso V. a Africa com 220. vèlas, e na de Arzilla com 338. Daqui em diante como o cõmercio das terras se foy abrindo, assim se foy acrescentando este poder de modo, que naõ sómente defenderaõ os nossos Reys as Costas maritimas de seus Reynos, mas mandaraõ poderosas Armadas a socorrer os estranhos, [43.] como foy a que levou a Italia D. Garcia de Meneses Bispo de Evora para a recuperaçaõ de Otranto,[74] e a que ElRey D. Manoel mandou em favor dos Venezeanos, e a com que ajudou ElRey D. Joaõ III.[75] ao Emperador Carlos V. na tomada de Tunes, e ElRey D. Sebastiaõ a ElRey de Castella para a tomada de Pinhaõ. Na India se vio mais este nosso poder maritimo,[76] pois desbaratamos naõ só as Armadas daquelles Reys do Oriente; mas as do Soldaõ do Cairo, e as do Gram Turco, cheyas de Genizaros, e Mamelucos. Por onde diz Damiaõ de Goes,[77] que em seu tempo trazia ElRey D. Joaõ III. no mar, assim no Reyno, como em suas Conquistas 300. vélas. ElRey D. Sebastiaõ passou a Africa[78] com 1U000. embarcaçoens, que foy a mayor Armada, e mais poderosa, que se vio no mar Occeano.
Porèm o que mais admira he a abundancia, com que os Reys deste Reyno tinhaõ providos os Armazens de Lisboa, para com toda a presteza poderem lançar ao mar huma Armada poderosa, quando lhes conviesse, como se vè dos exemplos seguintes.
Os Mouros de Granada cercaraõ a Cidade de Ceita[79] com huma armada de 64. vèlas, em que entravaõ onze galès. Soube ElRey D. Joaõ I por recado de Tarifa, que sahira esta armada sobre Ceita, e mandou em Lisboa aprestar o socorro com tanta brevidade, que quando o Conde D. Pedro de Meneses avisou a ElRey, jà a embarcaçaõ de Ceita achou no caminho o nosso socorro taõ poderoso, que rendeo a armada inimiga, e descercou a Cidade.