E para poder haver mais Navios armados no Reyno, dava ElRey de ajuda de custo 75. cruzados por cada hum aos que quisessem fazer Navios para andar às prezas na Costa de Guinè, ou Brasil, de 14. brancos, e dahi para cima; e que as prezas fossem suas. E aos que fizessem Navios de alto bordo, ou remos para andar na Costa do Algarve, e de Portugal em corso, lhes concedia tambem as prezas, justificando depois, que sahissem em terra, como eraõ de Cossarios, e tomadas em boa guerra; para o que haviaõ de dar fianças, antes de partirem, diante dos Officiaes, que haviaõ de visitar as mesmas Embarcaçoens. Com estas ordens se accrescentou grandemente o cõmercio em tempo delRey D. Sebastiaõ, e navegavaõ os Navios deste Reyno com grande segurança de Cossarios. Mas acontecendo a esta boa ordem o que he ordinario nos decretos dos Principes, que quanto tem mais rigorosos principios, tanto tem depois mais descuidados fins, assim o veyo haver nesta materia, e nos que andavaõ às prezas alguns excessos, pelos quaes foraõ publicamente castigados, e se lhes tornou a prohibir a licença. O que senaõ succedera, foraõ de naõ pequeno proveito, tanto para defensaõ dos lugares do Reyno, como para os cõmercios delle. De presente acudio ElRey Nosso Senhor ao grande desamparo, com que de muitos annos a esta parte andavaõ os nossos Navios do cõmercio feitos continuas prezas dos Cossarios, ordenando a Companhia da Bolsa do Brasil para que todas as Embarcaçoens mercantîs vaõ juntas, e guardadas com huma boa Esquadra de Galeoens de guerra; com o que fica seguro o cõmercio em grande beneficio deste Reyno, e em mayor danno de nossos inimigos, os quaes com as ricas, e continuas prezas, que nos tomavaõ, nos faziaõ guerra à nossa custa.

§. XVII.

Da instituiçaõ das Ordens Militares para defender o Reyno.

Deixey para o fim desta materia da guerra tratar das Ordens da Cavallaria deste Reyno; porque ainda, que saõ a mais antiga Milicia delle, com as mudanças do tempo, se mudou em parte o exercicio do de seu instituto. O que com razaõ notou Joaõ Botèro,[86] e Bozio,[87] e outros Estrangeiros, dizendo que havendo em Hespanha tantas Commendas, e particularmente em Portugal, com que os Reys sem dar nada de sua casa, podem trazer em seu serviço toda a Nobreza do Reyno; por particulares respeitos se deixa perder este meyo, que redundaria em taõ grande beneficio de seus Reynos, de suas rendas, e de sua reputaçaõ.

Foraõ as Ordens Militares de Aviz, e Santiago, e Christo, e do Hospital de S. Joaõ instituidas, e admittidas neste Reyno para defensaõ de seus moradores, e para recuperar dos infieis as terras, que tirannicamente tinhaõ occupado aos Christãos, militando contra os inimigos da Fé, assim por mar, como por terra, segundo o dizem largamente os Summos Pontifices nas Bullas de suas Instituiçoens, e nas que depois em seu favor passaraõ; e para este effeito lhes applicaraõ tantos bens, e dizimos das Igrejas deste Reyno.

A Cavallaria, que hoje està em Aviz, he a mais antiga de Portugal, e ainda pòde ser que de Espanha; pois se acha mençaõ destes Cavalleiros, antes do anno de 1150. em que começaraõ de Calatrava, q́ se tem pelos mais antigos de Castella. ElRey D. Afonso Henriques instituhio esta Ordem à imitaçaõ da do Templo; e Hospital de S. Joaõ, que alguns Cavalleiros zelosos da exaltaçaõ de nossa Santa Fé, fundaraõ em Jerusalèm. Na batalha do Campo de Ourique, que foy no anno de 1139. jà hà mençaõ destes Cavalleiros;[88] como tambem depois na tomada de Lisboa, que foy no anno de 1147. A isto se acrescentou, que ElRey D.Afonso Henriques instituhio outra Milicia no anno de 1169. em graças da vitoria, que alcançou por maõ do Anjo S. Miguel no Campo de Santarem de Albaraque Rey Mouro de Sevilha, que o tinha cercado com grande Exercito, como se conta largamente na 3. p. da Monarq. Lusit. Destes Cavalleiros, e dos primeiros, que ElRey instituira, fez ElRey hum Convento em Evora no Castello antigo da Cidade, dando-lhes por orago o mesmo Archanjo S. Miguel, cuja Igreja permanece ainda hoje no mesmo sitio antigo do Castello, que ao presente saõ casas do Conde de Basto, e o bairro se chama Freyria, pela habitaçaõ dos Freyres, e Cavalleiros, que alli moraraõ muitos annos, até que passaraõ o Convento a Aviz, para ajudarem a libertar aquella Comarca do poder dos Mouros, de que ainda estavaõ apoderados; o que elles fizeraõ com muito valor, ajudando a lançar fóra os Arabes desde Coruche até Landroal, e Jerumenha; em gratificaçaõ do qual lhe deraõ os Reys 18. Villas, que saõ, Cabeçaõ, Mora, Jerumenha, Landroal, Noudar, Veiros, o Cano, Fronteira, Figueira, Cabeça de Vide, Aviz, Galveas, Alter Pedroso, Seda, Albufeira, a Villa de Coruche, o Conselho de Serpa, Alcanede, e 48. Commendas, que rendem passante de 23. contos.

Os Cavalleiros da Ordem de S. Tiago floreceraõ em Castella com grande nome pelejando valerosamente contra os infieis: e sabendo como ElRey D. Afonso Henriques estava cercado em Santarem por ElRey de Sevilha com hum poderoso Exercito de Mouros, o vieraõ socorrer, e se houveraõ com tanto valor, que ElRey D. Afonso os recebeo em Portugal, fazendo-lhes muitas doaçoens; e os Cavalleiros continuaraõ na guerra contra os Mouros do Reyno, de modo, que ajudaraõ aos lançar fóra de Riba Tejo, e do Campo de Ourique, e ultimamente do Algarve, em cuja remuneraçaõ os Reys deste Reyno lhes deraõ 47. Villas, e lugares, que saõ Torraõ, Canha, Ferreira, Aljustrel, as Entradas, Mesejana, Casevel, Panoyas, Castro Verde, Alvalade, Ourique, Mertola, Almodouvar, Collos, a Commenda dos Padroens, S. Tiago de Cacem, Villa-Nova de mil Fontes, Sines, Cacella, a Villa de Aljezur, Meijaõ frio, o Concelho de Cidadelhe, o Concelho de Villamarim, o Concelho de Meijaõ frio, Livais, Canaveses, Amarante, Veiros de baixo, Veiros de cima, Alpedriz, Arruda, Setuval, Palmella, Couna, Barreiro, Alhos Vedros, Aldea Gallega, Alcouchete, Cezimbra, Cabrella, Çamora Correa, Benavente, Alcacere do Sal, a Horta do Amizio, Concelho de Campo bem feito, a Horta da Serra do Monte, o Concelho de Casal, e 150. Commendas, que rendem todas passante de 36. contos.

A Ordem dos Cavalleiros de Christo, como se fundou sobre as doaçoens, e herdamentos, que a Ordem do Templo tinha em Portugal, della devia tomar seu principio.

Dos primeiros nove Cavalleiros, que instituiraõ a Ordem do Templo, dous delles foraõ Portugueses, por quanto diz o Arcebispo de Tyro,[89] que esta Ordem se instituhio no anno de 1118. e que dahi a 9. annos se confirmou pela Sè Apostolica, que vem a ser no anno de 1127. e que em todo este tempo naõ foy o numero mayor dos nove primeiros. Com tudo consta da 3. p. da Monarquia Lusitana. l. 9. cap. 9. que jà no anno de 1226. D. Galdim Paez, e Arnoldo da Rocha com outros intitulados todos Cavalleiros do Templo fizeraõ concerto sobre a Villa de Ferreira com Pedro Fernandes, e Payo Perez. Pelo que se fica demonstrando, que ao menos estes dous eraõ dos primeiros nove; e parece que tornando-se para a patria, ajuntaraõ a si outros Cavalleiros, como em Confraternidade, e soldados seus, que os ajudavaõ a pelejar com os Mouros, estando ainda a Milicia sem a Confirmaçaõ Apostolica, e elles sojeitos, ou aos Ordinarios, ou aos Principes.

Trabalharaõ os Cavalleiros do Templo em libertar a navegaçaõ do Tejo, depois que entra neste Reyno em Montalvaõ, e o territorio a elle visinho.